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Beber com acompanhamento

Quer localmente, quer pela exportação dos bons hábitos gastronómicos para o estrangeiro, Portugal é um dos países onde se equilibram adequadamente as tradições alimentares e a sua renovação coerente e uma grande variedade de vinhos.

Beber com acompanhamento

Quer localmente, quer pela exportação dos bons hábitos gastronómicos para o estrangeiro, Portugal é um dos países onde se equilibram adequadamente as tradições alimentares e a sua renovação coerente e uma grande variedade de vinhos.

Diz-se que é um sinal do vício do alcoolismo o facto de a pessoa afectada beber sozinha bebidas alcoólicas e por isso se recomenda como prática saudável beber em companhia. Mas esta opção não é uma vacina segura contra o alcoolismo se, por exemplo, a pessoa está sozinha e lhe apetece beber.

Imaginemos o dilema: uma pessoa que gosta de beber vinho e que, em casa ou fora de casa, faz uma refeição sem companhia. Se gosta, deve, por absurdo que pareça, privar-se do vinho numa conjuntura destas? Não me parece.

O que deve fazer é juntar o útil ao agradável e optar por uma companhia adequada… gastronómica. Mais elaborada ou menos elaborada, mais improvisada ou mais requintada. E, felizmente, não faltam as boas ideias, pelo menos no caso português

Quer localmente, quer pela exportação dos bons hábitos gastronómicos para o estrangeiro, Portugal é um dos países onde se equilibram adequadamente as tradições alimentares e a sua renovação coerente e uma grande variedade de vinhos. É fácil encontrar correspondências entre vinho e comida, para que estes dois vectores sejam devidamente valorizados.

Já aqui defendi que a gastronomia e o vinho ligam muitas vezes melhor se na sua origem estiver a mesma região. Mas é possível procurar outras opções e fazer experiências.

O peixe não tem de ser sempre acompanhado pelo vinho branco. Um prato de sabor mais suave como um peixe grelhado convida mais ao branco, e não a um branco frutado “da moda” mas aos brancos a sério (a casta Encruzado é sempre uma referência) com sabor e aroma próprios. A harmonia aqui até pode ser quase perfeita.

Mas se o peixe grelhado é a sardinha, o seu sabor forte e único dar-se-á muito melhor com um vinho tinto, eventualmente a uma temperatura um pouco abaixo da temperatura média de serviço. Tal como um peixe assado no forno ou mesmo uma caldeirada. Ou, numa experiência que eu já repeti num restaurante próximo com um magnífico ensopado de enguias e vinho tinto.

O mesmo se passa com a carne. É defensável uma carne grelhada (mais a vaca e as aves do que o porco, por exemplo) com um vinho branco com sabor e personalidade. Mas ninguém  de bom gosto imaginará os grandes assados de forno, as carnes cozidas (o Cozido à Portuguesa) e tantos guisados e estufados de bons estrugidos com vinho branco.

Nesta divisão de águas (ou de vinhos, melhor dito), há um petisco universal: o bacalhau. A tradição portuguesa da gastronomia do bacalhau (que merece um tratamento à parte) contempla, além de um leque muito variado de receitas, todas as possibilidades: brancos e tintos, verdes e, até, rosés. Não há melhor companhia para todos os vinhos.

Portanto, se está só e quer beber (e comer), não se acanhe. Tudo lhe saberá melhor.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

Digestivo:
A casta Encruzado, que é para mim a melhor casta branca portuguesa, teve honras de destaque no “New York Times” pela mão (e pelo copo) do seu crítico de vinhos, Eric Asimov, entre 12 castas que “vale a pena descobrir”. É uma distinção importante porque os brancos da casta Encruzado, sobretudo os monocastas, afastam-se dos brancos adocicados e frutados que são os mais comuns. Asimov, sabedor, destaca-lhe um aspecto “intrigantemente amargo” e as suas qualidades refrescantes e saborosas. O texto completo pode ser lido aqui: https://www.nytimes.com/2017/03/24/dining/wine-grapes-rare-varieties.html

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Escrito por: webmaster

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