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Vinhos&Petiscos – Cinquenta e nove anos


O vinho, com 59 anos de idade, sai para os copos com uma cor castanha intensa. Estamos na Quinta da Fata, em Vilar Seco (concelho de Nelas, a cidade que pode ser considerada o “coração do Dão”), onde a produção de vinho, a partir de 2003, reatou a ligação com um passado glorioso.


Pedro Garcia Rosado


Uma garrafa foi aberta ao meio-dia. E outra já para o final da tarde. São ambas de 1958. O vinho, com 59 anos de idade, sai para os copos com uma cor castanha intensa. A primeira garrafa sucumbiu à idade e o vinho já revela um sabor avinagrado. Mas a segunda… é uma surpresa absoluta. Ou talvez não.

Estamos na Quinta da Fata, em Vilar Seco (concelho de Nelas, a cidade que pode ser considerada o “coração do Dão”), onde a produção de vinho, a partir de 2003, reatou a ligação com um passado glorioso. Eurico do Amaral, pai do actual proprietário, também Eurico, era um entusiasta do vinho e foi fundamental o seu papel na criação do emblemático Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, de Nelas.

As vinhas que deram origem a este vinho, em 1958, já não existem e a propriedade ganhou vinhas novas no início do século. Mas a qualidade do seu vinho manteve-se.

Com os seus 59 anos, o vinho tinto que Eurico do Amaral nos deu a provar não esconde, claro, algumas das características do seu envelhecimento. Decantado, com o passar das horas, revela-se no entanto ainda muito bebível e, a pouco e pouco, expõe as características de sabor do típico vinho do Dão e a sua força aromática. Orgulhoso do que faz, e com motivos para isso, Eurico do Amaral tem sempre dúvidas sobre o que poderá sair das garrafas de 1958. Mas depois mostra-se justificadamente orgulhoso.

Não há que enganar: pelo menos, devido à combinação do “terroir” com a localização e sempre pelo saber de quem os faz, os vinhos desta pequena quinta são perfeitos.

Na mesma jornada em que pudemos provar o vinho tinto de 1958 provámos também o já anunciado Conde de Vilar Seco. Feito com Touriga Nacional da colheita de 2010, sairá, espera-se, no final deste ano. E o que está nas 1200 garrafas desta edição especial é sublime. Com sete anos de estágio, o futuro Conde de Vilar Seco é um vinho tinto ímpar, cheio de vida e de sabor e aroma que ganha ainda mais com a sua abertura.

Esta edição, o Touriga Nacional 2014 Grande Reserva (também a sair em breve) e o Encruzado 2015 (talvez o melhor vinho branco que já bebi em toda a minha vida) confirmam a importância da Quinta da Fata no panorama vinícola português. Como, aliás, pode ser facilmente confirmado pela prova dos seus vinhos.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

Digestivo:

Neste regresso ao Dão, o que gosto de fazer anualmente, há mais confirmações do que decepões. No domínio dos petiscos, os restaurantes Valério (em Mangualde), Carneiro (em Penalva do Castelo) e Quinta de Cabriz (em Carregal do Sal) são, com estilos diferentes, referências incontornáveis e onde é sempre agradável regressar.

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