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O tinto efeminado

Para uma refeição de quatro adultos vieram para a mesa um branco Encruzado da Quinta do Sobral (Santar), o vinho tinto corrente da casa (Quinta do Sobral) e um tinto “especial”, com o rótulo do restaurante e apresentado como reserva com a designação “Pataco’s”. O branco era bom, o corrente também (os vinhos da Quinta do Sobral são despretensiosos e honestos)… e o Pataco’s foi uma decepção.


Pedro Garcia Rosado


O restaurante Zé Pataco, em Canas de Senhorim (concelho de Nelas), é um sítio simpático. Conheci-o ainda tasca, há muito tempo. Hoje, à escala urbana do interior português, é um restaurante mais sofisticado, com pratos regionais interessantes e uma boa lista de vinhos da região (Dão).

Para uma refeição de quatro adultos vieram para a mesa um branco Encruzado da Quinta do Sobral (Santar), o vinho tinto corrente da casa (Quinta do Sobral) e um tinto “especial”, com o rótulo do restaurante e apresentado como reserva com a designação “Pataco’s”. O branco era bom, o corrente também (os vinhos da Quinta do Sobral são despretensiosos e honestos)… e o Pataco’s foi uma decepção.

De início prometeu muito mas depois o sabor adocicado a baunilha acabou por se impor. A garrafa nem se esvaziou.

O mesmo sabor abaunilhado revelou-se dois dias depois, de novo, num tinto do Douro, reserva, Visconde de Garcez (cujo vinho corrente é muito bom). E fez recordar uma experiência semelhante de uma prova de vinhos de Figueira do Castelo Rodrigo.

Do vasto conjunto de “sabores” que muita gente diz identificar nos vinhos, a baunilha parece estar a ser o mais usado. É um sabor que se sobrepõe por completo ao sabor do próprio vinho e que o faz quase insuportável para quem, como eu, não gosta de vinhos de mesa doces.

A tendência, a existir, não surpreende. Os vinhos tendem a ser concebidas por modas, ou por expectativas comerciais, e os sabores começam a torná-los muito iguais. A ideia será esta: se há um padrão comercialmente bem-sucedido, é preciso imitá-lo. E a baunilha pode ser o elemento tido como mais consensual. Portanto, um vinho tinto que saiba e cheire a baunilha é bom, vende-se mais.

Só que acaba por não ser o vinho tinto naquilo que ele tem de essencial. O vinho fica doce, o seu sabor original é obliterado, as características das castas ficam esmagadas e a robustez de corpo e aroma perde­-se. É um vinho que fica aligeirado, efeminado, capaz de adoçar o palato e de esconder a sua personalidade própria, delicodoce e suave e incapaz de entusiamar.

Não me parece que deva ser este o rumo dos vinhos portugueses.

Digestivo:

Escrevi na semana passada que a portuguesa “Revista de Vinhos” tinha acabado. Não acabou. O que acabou foi a equipa que fazia a “Revista de Vinhos”. A sua editora, a empresa Masemba, terá chegado a um acordo com a empresa Essência do Vinho, que tem (ou tinha) a revista “Wine”, ficando a “Revista de Vinhos” debaixo da alçada de quem faz (ou fazia) a “Wine” e tendo saído a sua equipa original. O que aconteceu, no entanto, não é contado ao pormenor pelos próprios, quer os que saíram quer os que entraram, e parece nem ser notícia. A imprensa portuguesa é um poço de obscuridade, mesmo no que se refere às publicações de nicho.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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