Segunda, 27 de Março, 2017

Trump puxa o tapete a Guterres

Quinta-feira Guterres indicou, na sexta Trump vetou. E como na ONU manda quem pode, ao contrário do que pretendia o secretário-geral, o ex-primeiro ministro da Autoridade Palestina (2007/2013) Salam Fayyad não será o enviado especial das Nações Unidas para a Líbia.

Quinta-feira Guterres indicou, na sexta Trump vetou. E como na ONU manda quem pode, ao contrário do que pretendia o secretário-geral, o ex-primeiro ministro da Autoridade Palestina (2007/2013) Salam Fayyad não será o enviado especial das Nações Unidas para a Líbia.

O veto ao indicado por Guterres veio através de um comunicado emitido pela nova embaixadora dos EUA junto da ONU, Nikki Haley, dando conta de que a administração do presidente Donal Trump ficara "desapontada" ao saber que o secretário-geral tinha proposto ao Conselho de Segurança a nomeação do palestino.

Justificação apresentada pelos EUA – o facto da Palestina não ser membro de pleno direito das Nações Unidas. Mas a própria embaixadora acaba por reconhecer, no seu comunicado, que a razão do veto foi mais política do que formal, ao afirmar: "Há muito que a ONU vem sendo injustamente favorável à Autoridade Palestina em detrimento dos nossos aliados em Israel".

O porta-voz de Guterres ainda defendeu a indicação de Salam, afirmando ter sido "apenas baseada nas suas reconhecidas qualidades pessoais e competência para o desempenho do cargo". Mas isso de nada valeu. Trump, que recebe o primeiro ministro israelita Netanyahu na próxima quarta-feira em Washington, terá querido assim marcar ostensivamente que está disposto a inflectir a posição dos EUA num sentido mais favorável a Tel-Aviv.

É pelo menos assim que os próprios israelitas interpretam: o embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, saudou o veto americano, considerando estarmos no "início de uma nova era, em que os EUA estarão firmemente ao lado de Israel contra toda e qualquer tentativa de o prejudicar".

O que falhou?

Seja ou não assim, a verdade é que o desenlace é, no mínimo, estranho.

Político hábil, muito experiente e cauteloso, Guterres certamente sondou previamente todas as partes envolvidas antes de tomar uma decisão.

Esse é, em geral, o modus faciendi da política internacional e muito em particular dos corredores da ONU. É a velha regra mineira da negociação de bastidores, em que, como ensinou Tancredo Neves, primeiro recebe-se a resposta e só depois se escreve a carta...

A indicação de Fayyad parecia aliás fazer parte de um pacote equilibrado, em que, à nomeação de um palestino seguir-se-ia a designação de uma personalidade israelita para um alto cargo na ONU.

Segundo o diário israelita Haaretz deste domingo, Guterres teria proposto à antiga ministra dos negócios estrangeiros de Tel-Aviv, Tzipi Livni, líder da coligação de centro-esquerda União Sionista, no Knesset, um alto cargo na ONU, dando assim mais visibilidade e poder de intervenção aos israelitas nas Nações Unidas.

Agora, com o veto americano ao ex-primeiro ministro palestino, e se não houver outra contra-partida, a designação da parlamentar israelita pode ficar comprometida.

Na aparência favorável a Israel, o veto ao palestino pode afinal virar-se contra Tel-Aviv... Maquiavel não faria melhor. A menos que Trump, em mais um volte-face, acabe por aceitar o que a sua embaixadora começou por rejeitar.

Para já, o que parecia uma decisão previamente negociada e equilibrada, ficou desfeita e o jogo terá de recomeçar.

Quem sai certamente a perder deste episódio é Guterres, agora na sua primeira viagem como secretário-geral da ONU ao Médio Oriente. De um momento para o outro e por culpa de Trump, viu evaporar-se uma solução de equilíbrio que poderia ter sido a sua melhor mensagem numa região tão dividida e conturbada.


Comentários (1)
1 Jossi
13/02/2017 10:07
Tzipi Livni não é a líder da União Sionista, Isaac Herzog é. Livni é a líder da partida Tnuah, que está na coligação União Sionista.

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