Sexta, 24 de Fevereiro, 2017

Comer, beber e fazer uma experiência

Tomemos um lugar-comum: a acompanhar a refeição, os vinhos tintos são para a carne e os vinhos brancos são para o peixe. (...) Vamos ser mais específicos: e que vinhos? Não são todos iguais, vêm de regiões diferentes e têm castas também diferentes. O público, em geral, pode não querer fazer a distinção mas eu recomendo-a. Pode ser uma experiência sublime.
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Tomemos um lugar-comum: a acompanhar a refeição, os vinhos tintos são para a carne e os vinhos brancos são para o peixe. Nesta classificação generalizante podemos pensar que há vinhos brancos que podem acompanhar algumas carnes (vinhos de castas características, como o Encruzado) e que há pratos de peixe (como os pratos de bacalhau) que também ficam bem, e muito bem, com vinho tinto.

Vamos ser mais específicos: e que vinhos? Não são todos iguais, vêm de regiões diferentes e têm castas também diferentes. O público, em geral, pode não querer fazer a distinção mas eu recomendo-a. Pode ser uma experiência sublime.

Tomemos dois pratos tradicionais portugueses e ambos fortes e de características pronunciadas. E vamos aos vinhos das regiões de onde eles são originários.

Um é o Bacalhau à Minhota, com uma posta de bacalhau tostada no forno ou frita, acompanhada com batatas fritas às rodelas e cebolada. O outro é o de Migas com Entrecosto, onde os pedaços de carne de porco frita se aliam a um acompanhamento feito de pão demolhado e lentamente frito, com alho e coentros e gordura adequada.

O primeiro prato é da região do Minho, no extremo norte do País e, sendo peixe, requer vinho branco? Talvez não. O vinho branco, e então se for dos brancos-padrão, perde-se perante o sabor intenso do prato. Mas é no Minho que se encontra parte de uma região demarcada muito específica, a dos vinhos verdes. Brancos e tintos (e agora também já têm rosés), os vinhos verdes ganharam esta designação por serem, na sua origem, feitos com uvas ainda não completamente maduras. E, com este processo, ganharam uma personalidade fresca e mais viva. A sua casta-rainha é o Alvarinho, que dá origem a vinhos com maior graduação alcoólica. E, neste caso, acompanha bem o Bacalhau à Minhota. Para o qual também existe vinho verde tinto e com uma casta de sabor bem marcado e, às vezes, mais acre, o Vinhão.

O Entrecosto com Migas é um prato do Alentejo, região de gastronomia de base simples mas que é enriquecida pelos métodos de confecção e pelas ervas aromáticas. Pede um vinho tinto. E ficará decerto bem acompanhado por um vinho tinto alentejano robusto e, de preferência, sem as castas Cabernet Sauvignon, de que já falámos e que adocica o vinho, e Touriga Nacional (que é de outros "terroirs"). Ou, por exemplo, de um tinto da região da Península de Setúbal, onde predomina a casta Periquita (ou Castelão), que também não seja adocicado.

A conjugação dos mesmos pratos e dos mesmos vinhos de uma região específica proporciona bons momentos gastronómicos, em si, mas também, se a companhia for interessada no tema, um jogo de preferências, provando um vinho da mesma região e outro vinho de outra. Qual deles será o melhor? O paladar e o olfacto serão sempre os melhores juízes.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

Saiba mais:

Há aqui uma boa receita de Bacalhau à Minhota, que se recomenda: http://www.gastronomias.com/receitas/rec1565.htm.

Para o Entrecosto com Migas (com a hipótese de migas de batata e não de pão), recomendo esta receita de Castelo de Vide: http://www.castelodevide.pt/turismo/pt/ver-e-fazer/gastronomia/pratos-tipicos/migas-com-entrecosto.

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