Segunda, 27 de Março, 2017

Ai, os meus milhões!

Querem a minha opinião? Chamem a Polícia! É assunto de polícia, de Ministério Público, de Procuradoria-geral da República, pois claro! Investiguem, investiguem! Ou será preciso pedir ao juiz Moro e sua equipe que dê aí um pulinho? Talvez não. Bom Carnaval a todos. Disfarcem-se de milhões!

Assim, de repente. Pois, foi de supetão que os portugueses ficaram a saber, primeiro nas páginas do jornal Público e, logo em seguida, nos noticiários das rádios e das televisões que em três  anos, entre 2011 e 2014, dez bilhões ( dez mil milhões) de euros voaram dos cofres dos bancos portugueses para prometidos paraísos fiscais.

Do sucedido não sabiam os portugueses que, num país onde a transparência do que deveria ser público ainda é apenas uma figura de retórica, continuam a ser os últimos a tomar conhecimento das coisas importantes ; não sabia o governo atual, do primeiro-ministro António Costa; dizem os governantes da época, liderados por Passos Coelho, que também desconheciam o esvoaçar dos euros ; não sabiam do sucedido os homens e mulheres a quem cabe esmiuçar as nossas vidas para que não erremos nem num cêntimo nos impostos devidos ao erário público. Não sabia quem deveria saber, ou seja, o então secretário de Estado Paulo Núncio. Enfim, até ao momento, parece que ninguém sabia. Talvez o soubesse o porteiro do Ministério das Finanças. Interroguem-no! Com os rigores da lei, é claro!  Talvez o homem confesse.

Uma coisa todos conhecemos agora: que os nossos ricos de estimação - não importa, por ora, os seus nomes, pois logo eles passarão, como habitualmente, ao domínio público - enviaram para os paraísos os seus porquinhos de estimação. O que, dizem os especialistas nessa matéria, nada teria de ilegal.

Os ricos podem colocar os seus mealheiros onde bem lhes apeteça, garantem. Mas, esclarecem, para que tudo seja limpo, limpinho, como mandam as regras, é necessário que todas essas transferências sejam escrutinadas pelo Fisco, no caso a Alta Autoridade Tributária, e paguem os devidos impostos.

A grana voou. Cliques rápidos transportaram, ao longo de três anos, dez bilhões de euros dos bancos instalados na bela Lisboa ou na "invicta" cidade do Porto – suponho eu – para os cofres-fortes da ilha de Man, de Andorra, de Barbados ou até, quem sabe, para o distante Djibouti, lá no corno da África.

Dez bilhões ou dez mil milhões voaram. Patrioticamente. Em plena crise. Isso quando os portugueses eram ameaçados diariamente pelos governantes de plantão com as penas do inferno se não cumprissem rigorosamente as regras do Fisco, fosse na lanchonete da Dona Maria, na esquina da rua, ou na oficina de relojoeiro do  sr. Manel, no vão da escada do prédio. Isso aconteceu quando os portugueses endividados graças à brutalidade de uma política de austeridade, viam penhoradas as suas habitações.

Diga-se, em boa verdade, que as ameaças dos sátrapas de nada adiantaram. Parece ser uma característica dos povos mediterrânicos não suportarem ameaças. Pelo que se vai vendo – dizem-me -  aplicaram se ainda mais em tornear as regras. Você, querido leitor ou leitora, que vive deste lado do oceano também sabe, e bem, como resolver aquela singela pergunta: "vai querer nota?".  Pois, quando o orçamento já está apertado e o fim do mês distante a resposta é quase sempre a mesma. Adivinha qual é?

Voltemos ao assunto. Os que enviaram os milhões para os tais paraísos não passam por esse tipo de constrangimento. Sendo certo – garantem os fiscalistas portugueses - que podem transferir o seu pecúlio para onde bem entendam, pagando aos cofres públicos o que devem pagar. O que os portugueses agora querem saber é: quem autorizou as transferências sem que delas fosse dada a publicidade a que estão obrigadas por lei; quem foram os beneficiados, quem guardou silêncio durante tanto tempo, e o que vai acontecer aos participantes do esquema de aparente ocultação? Já agora, a pergunta necessária: pagaram tudo o que tinham a pagar?

Querem a minha opinião? Chamem a Polícia! É assunto de polícia, de Ministério Público, de Procuradoria-geral da República, pois claro! Investiguem, investiguem! Ou será preciso pedir ao juiz Moro e sua equipe que dê aí um pulinho? Talvez não. Bom Carnaval a todos. Disfarcem-se de milhões!

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