Segunda, 27 de Março, 2017

Ir para além da defesa do poder

Só não vê quem não quer mesmo ver a importância que tem para a economia, a psicologia coletiva, ajudada pela reposição de direitos a salários e pensões que haviam sido cortados para além do razoável, numa defesa que ultrapassou em muito o memorando da Troika.

Os indicadores económicos de Portugal, referentes ao último trimestre do ano passado, ultrapassaram positivamente as previsões, em particular no crescimento, na criação líquida de emprego e no défice.

Estes resultados não são indiferentes ao clima de distensão que passou a existir, estimulando a recriação da esperança e gerando mecanismos de maior confiança, em contraste com o quadro existente sob a governação anterior.

Só não vê quem não quer mesmo ver a importância que tem para a economia, a psicologia coletiva, ajudada pela reposição de direitos a salários e pensões que haviam sido cortados para além do razoável, numa defesa que ultrapassou em muito o memorando da Troika.

Naturalmente que houve outros fatores, inclusive da atual conjuntura externa que tem sempre um verso e um reverso. O reverso bafejou Portugal nos últimos anos, incrementando um forte crescimento do turismo em desfavor de países que experimentam conflitos internos e, por isso, deixaram de ser destinos atrativos.

A estabilidade política e social que se vive em Portugal tem sido essencial, facto a que não é alheia a solução governativa encontrada.

Sendo esta a realidade, é no mínimo estranho que a oposição, protagonizada pelos dois partidos que precederam a atual governação do PS, persistam em sustentar as mesmas políticas que praticaram enquanto estiveram no governo, insensíveis aos estudos de opinião e sondagens que as condenaram.

Os dois partidos - PSD e CDS - não levam em consideração as alterações verificadas na conjuntura mundial e os efeitos internos dela, inclusive as razões da mudança de avaliação sobre o governo à medida que a estabilidade se foi consolidando. Isto não é nada positivo para o país, que necessita de uma oposição que apresente soluções alternativas credíveis. É preciso uma oposição forte.

É que, independentemente dos resultados que o governo tem alcançado, nomeadamente no último trimestre de 2016, os objetivos a prosseguir pelo país envolvem a necessidade de um combate sério em múltiplas frentes, devendo ser assumido como um desígnio que a todos envolve.

Os recentes episódios que uma estação televisiva fez passar sob o título "O Assalto ao Castelo", por pessoas que se intitulam empresários, bancários e banqueiros e políticos, estes transvertidos com outras vestes mas com propósitos a todos os títulos inaceitáveis e condenáveis, é elucidativo de comportamentos de enorme gravidade que devem e têm de ser penalizados. Cruzar a política com os negócios, como ocorreu, sob o mando destes, pode ferir de morte a democracia, se não houver - como deve haver - grande firmeza e consenso político-partidário.

É necessário regenerar a política neste novo ciclo que o mundo passou recentemente a experimentar - e que a eleição de Trump é mero exemplo - com uma visão que esteja para além da defesa do poder ou do desejo de o retomar.

Vítor Ramalho é secretário geral da UCCLA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e dirigente do Partido Socialista português

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