Redes Sociais:
HomeOpiniãoElogio da cozinha

Elogio da cozinha

M. tem um letreiro pendurado na cozinha, em local razoavelmente visível, que a sua mulher lhe ofereceu. Em casa é ele quem cozinha e tende a haver uma divisão tácita de tarefas: ele ocupa a cozinha, no seu mister de chef doméstico, e ela vai para lá depois da refeição.


O letreiro, em inglês, reza assim: “A messy kitchen is a sign of a successful meal”, ou seja, “Uma cozinha desarrumada [ou suja] é um sinal de uma refeição bem-sucedida”.

Não se pode dizer, em abono da verdade, que M. deixe a cozinha suja, desarrumada, caótica ou qualquer coisa assim. Mas, durante os seus preparos, a situação é comprovadamente confusa: todos os espaços disponíveis estão ocupados por alimentos, instrumentos, travessas, passadores, recipientes, caixas de plástico… tudo. Depois, à medida que o processo avança, a impressão de terra de ninguém atenua-se e a cozinha fica em melhor estado. Não satisfaz, no entanto, a mulher de M., que sempre protesta.

Lembrei-me de M. e do letreiro, há poucos dias, quando estava a jantar num dos pequenos restaurantes locais. O prato era cabrito assado e, na mesa que gentilmente nos atribuem quando lá vamos, calhou-me ficar voltado para a cozinha.

A situação parecia caótica e a cozinha é pequena. Mas a cozinheira é uma rainha de mãos de fada. Nessa noite, o marido (que também serve à mesa) foi dar uma ajuda lá dentro. Mais confusão? Não e quase tenho vontade dizer que é arte: o cabrito assado, com o seu arroz de açafrão com miúdos, batatinha de forno e grelos salteados, estava uma maravilha.

A cozinha é um dos elementos essenciais dos restaurantes e a sua observação é sempre fascinante. Já vi um chef a cozinhar com a maior destreza e com uma limpeza cirúrgica (que fez uma bela cataplana), já vi um cozinheiro a atirar para um canto um prato que parecia ter sido recusado à mesa. Há um programa de televisão, ou vários, dedicado ao que corre mal nos restaurantes (cozinhas incluídas), que inclui uma apreciação dos pratos servidos e, em geral, o certo é que convergem o estado (indecente) das cozinhas e o que é servido.

Há vários anos, quando frequentava com regularidade alguns restaurantes da Baixa de Lisboa, um amigo, em resposta ao meus comentários favoráveis, disse-me que se eu lhes visse as cozinhas nunca mais lá voltava. Talvez ele tivesse razão.

Mas lapsos todos têm. Há vários anos, noutro restaurante que frequento e onde a carne era, e é, grelhada à vista do cliente, a senhora que estava ao lume deixou cair no chão uma peça de carne já cozinhada no caminho entre o fogo e a travessa. Com uma descontração feita de muitos anos de prática, apanhou a carne e pô-la na travessa. Ninguém se queixou, a senhora, tantos anos depois, já não trabalha lá e o restaurante, que tem melhorado muito, faz parte dos meus favoritos.

“Messy”? Talvez. Mas bom, sem a menor dúvida!

DIGESTIVO

Já aqui falei, em pormenor, do Cavalo Negro, uma bela aposta nos tintos da região Tejo da Parras Wines, de Alcobaça. Depois de correntes e reservas de 2014, 2015 e 2016, chegou agora o “Vinhas velhas” de 2016. Feito de Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Aragonês, distancia-se um pouco dos seus “irmãos” e das suas características mais vivas. Sendo coerente com os anteriores, transmite uma impressão ainda longínqua de um toque abaunilhado. Quem conhece os restantes (vendidos em exclusivo no Pingo Doce e exportados para o Brasil), deve conhecer este. Que até pode precisar de mais descanso na garrafa.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

Compartilhar

Escrito por: Portugal Digital

Nenhum comentário

Deixe um comentário