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Peregrinação: Quinta do Escudial


Conhecer o vinho, já o tenho escrito, é ir à descoberta dele, à procura da surpresa, do que de melhor se pode encontrar. E foi, por exemplo, o que me aconteceu com a Quinta do Escudial, em Vodra (Seia), no Dão.


Nunca tinha ouvido falar deste produtor nem dos seus vinhos e foi precisamente na Quinta de Cabriz (o restaurante) que nos falaram na Quinta do Escudial, a partir de uma particularidade. Os seus vinhos não têm estágio em madeira e são, naturalmente, promovidos como tal e como diferentes relativamente aos restantes. É uma opção agora menos invulgar mas que tem riscos. O estágio em barricas ajuda o vinho a maturar, enriquece-o com outros aromas (e, às vezes, com aromas artificiais), fá-lo crescer.  Só que, neste caso, dispensada a madeira, o resultado é surpreendente.

Foram o próprio produtor, José Augusto Marques Silva, e a sua mulher, Estefânia Tereso, que nos receberam nessa primeira visita que, sem ser programada, teve apenas um telefonema a perguntar se lá podíamos ir nessa mesma tarde. As portas abriram-se e, no que distingue os produtores de carácter, as garrafas foram de imediato postas à nossa disposição para a prova.

Se o tinto, contidamente provado, revelou todo o seu esplendor, o branco que saiu da cuba, e ainda nessa altura por engarrafar, voou alto. O branco da Quinta do Escudial é, aliás, muito interessante. Com utilização de várias castas, incluindo a Encruzado (a casta branca emblemática do Dão), é um vinho branco que tem sabor, aroma e corpo que outros brancos do Dão com vários lotes não conseguem atingir ou que, melhor dito, tanto podiam ser do Dão como do Alentejo. O mais recente tem mais Encruzado, o que se nota bem, sem nada perder das suas particularidades.

A Quinta do Escudial, que produz cerca de 30 mil garrafas por ano, foi um projecto tardio do casal, que há cerca de quinze anos pegou numa propriedade familiar nos arredores de Seia para se dedicar à produção vinícola, retomando o que já o pai de Estefânia fazia. Com uma capela na propriedade, a Quinta do Escudial tem as suas vinhas num terreno granítico de boa exposição solar.

E talvez, para além dos segredos da pedra (e de uma gruta cujo ar frio ajuda a refrescar as cubas onde o vinho repousa), esteja aí um dos segredos dos seus vinhos. O vinho do Dão beneficia destes ambientes quase extremos, entre o muito frio e o muito calor, o que lhe confere características únicas. Os vinhos da Quinta do Escudial são, à sua maneira, únicos e estão nos lugares mais elevados do meu “ranking”.

O cronista e o produtor da Quinta do Escudial, José Augusto Marques da Silva.

DIGESTIVO

A Quinta do Escudial, como outros produtores, também é um exemplo de acolhimento e de amabilidade beirã. A prova, à primeira visita, foi decisiva para a compra dos vinhos. Foi há dois anos e temos voltado, no ano passado como já neste, comprando e, naturalmente, provando. A hostilidade ao potencial cliente (como já me aconteceu em sítio onde não volto a pôr os pés) não ajuda a vender. E o certo é que, pela minha experiência junto de vários produtores do Dão, a prova tem conduzido, invariavelmente, à compra e a um melhor conhecimento das pessoas e da sua sabedoria.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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