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Música, canto e encanto no Dia da Língua Portuguesa em São Paulo

Música, canto e poesia estiveram de braços dados na comemoração de dez anos do Instituto EDP e do Dia da Língua Portuguesa, na noite de sábado (05), na sala São Paulo, no centro da capital paulista. Uma noite de festa. Parafraseando Chico Buarque: “Foi bonita a festa, pá”!


Um aniversário que reuniu, no belo salão dedicado à música, as vozes e a representação dos brasileiros Vanessa Moreno e Fi Maróstica; Gilberto Gil,  ícone da música popular brasileira (MPB), que trouxe um reportório variado, do forrozinho dos sertões nordestinos a “Esperando na Janela”, entre dezenas de outros êxitos; e a portuguesa Carminho, intérprete do fado tradicional.

Num desafio incomum, todas essas vozes se fizeram acompanhar pelos acordes, mesmo quando aparentemente conflitantes, da Orquestra de Câmara da ECA/USP, constituída por jovens e talentosos músicos da Universidade de São Paulo, regidos pelo maestro Gil Jardim.

Foi um espetáculo de alta qualidade, assistido por um público que não poupou aplausos, em muitos momentos, ao complexo trabalho de juntar o tradicionalíssimo fado, esse gênero tão “anárquico” e singularmente português, nas palavras de Carminho, aqui sem o choro da guitarra portuguesa, tão ausente, ao que há de melhor na música brasileira, na voz tropical de Gilberto Gil,  à multiplicidade dos sons de uma orquestra que, mesmo que estivesse sozinha, já seria um grande espetáculo.

O embaixador de Portugal, Jorge Cabral, e o diretor presidente da EDP Brasil, Miguel Setas, foram os anfitriões de uma festa que se destacou pela qualidade artística e que culminou com um “Porto de honra”, acompanhado do quase obrigatório pastel de nata, ex-libris da doçaria portuguesa, por aqui chamado,  mais frequentemente, de “pastel de Belém “, oferecidos a um público tão diverso de sotaques  quanto o é a língua portuguesa, de Camões a Vinicius, de Guimarães Rosa ou Jorge Amado a Saramago ou Aquilino, de Luandino a Pepetela. A lista seria longa.

O Dia da Língua Portuguesa, comemorado na noite de sábado, em São Paulo, foi, sem dúvida – passado que está o momento em que as vivências induzem as primeiras emoções, de  agrado ou desagrado, e o tempo vai construindo o amadurecimento das percepções – um dos melhores espetáculos criados para comemorar a lusofonia ou, tão só, as raízes comuns luso-brasileiras em mais de duas décadas que tenho de permanência em terras brasis.

Mas, injusto seria, para quem lê estas linhas, se não deixasse aqui um apontamento de uma realidade que caminha à margem da beleza de um espetáculo.

Ao chegar de táxi ao local do evento, na Praça Júlio Prestes,  vizinha à tristemente famosa “cracolândia”, no centro da capital paulista, pouco passava das nove da noite, vislumbro um edifício imponente, escondido por débil iluminação que parece não querer incomodar os que por ali circulam. O taxista , com olhar que me parece inquieto e tom de voz em que julgo adivinhar alguma preocupação, pergunta-me se é mesmo ali que quero ficar. Não tenho uma resposta pronta. O endereço não tem erro, mas não vejo qualquer movimento próprio do início de um espetáculo anunciado, confirmado, e com lotação esgotada.

O que vejo são as sombras de dezenas de pessoas deitadas na calçada que acompanha o edifício, casa das artes da capital mais rica da América do Sul. Corpos embrulhados em cobertores e que se deixam adivinhar pelos faróis dos carros que por ali passam. Enquanto procuro o que responder ao taxista, ele avança uns metros e descobre uma rua que acompanha a lateral do edifício. Não há erro: é ali mesmo. Da entrada da Sala São Paulo, agora descoberta, não se veem os corpos que se preparam para atravessar mais uma noite. A iluminação, aqui, é quase feérica. Homens e mulheres saem dos carros e caminham para a entrada do edifício. Gente, como eu, que não dorme ao relento, por necessidade.

Enquanto os sentidos, lá dentro, na bela sala, se deixam envolver pelo canto e pela música, do lado de fora, tento eu adivinhar, contam-se as estrelas. prenúncio de uma boa noite, fria, talvez, mas sem as chuvas torrenciais que, até há poucos dias,  não pouparam a cidade e, mais ainda, os seus habitantes mais esquecidos.

A todos os leitores, desejo uma boa semana.

 

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