Redes Sociais:
HomeOpiniãoA gastronomia e o jornalismo não precisam de imitadores de Quitério

A gastronomia e o jornalismo não precisam de imitadores de Quitério

Na melhor tradição jornalística, José Quitério fazia as suas crónicas a partir de um conhecimento extenso da literatura portuguesa mas também da própria língua.


José Quitério (n. 1942) consegue a proeza, justificada, de ser o único nome verdadeiramente de referência no jornalismo português contemporâneo na área da gastronomia. Foi quem, como jornalista, inaugurou a secção de gastronomia do influente “Expresso”em 1976 e durante 38 anos criou uma forma muito específica de escrever sobre o tema.

Na melhor tradição jornalística, fazia as suas crónicas a partir de um conhecimento extenso da literatura portuguesa mas também da própria língua. Comentava restaurantes e comidas mas o que escrevia ia sempre além do momento e dos limites do tema.

A sua influência estendeu-se, de uma maneira muito especial, ao próprio meio jornalístico, criando um padrão e um modelo. E não faltou quem, mesmo por razões de admiração pessoal, o imitasse. Tal como não falta quem, e já sem conhecimento da fonte, imite… os imitadores.

Um dos traços da escrita de Quitério era a multiplicação de referências a textos clássicos. Era, à sua maneira, um erudito. Não é por aí, no entanto, que o imitam. Há um traço geracional negativo, que não se reflecte só na imprensa, que advém de um conflito com a literatura e a leitura. A cultura do “passado” é alheia a esses pobres de espírito.

A imitação vai, assim, pelo mais fácil: como é que se reproduz, na escrita, o prazer sensorial, olfativo e gustativo, da comida? Quitério fazia-o na perfeição. Os seus imitadores já não conseguem e, tentando fugir às palavras e expressões “normais”, mas desconhecendo os textos escritos, seguem o “ar do tempo” das palavras que só conhecem de ouvir dizer.

Outro traço era a transmissão dos prazeres da alma (êxtases e desagrados) e do estômago aos seus leitores, da única maneira possível: pela escrita no papel. Para isso foi extremamente útil o seu conhecimento de outros domínios da literatura. E é aqui que hoje também se falha: dominando mal a língua, escrevem mal. É fácil imaginar estes aspirantes a Quitério de olhos em alvo, em delírio, a tentar expelir palavras menos usadas. Mas depois elas falham e a “degustação” é um palavrão obrigatório, não pode faltar o “supostamente” (ou os seus primos “alegado” e “resiliência”) e dão-se pelo caminho erros gramaticais, como a transformação do adjetivo “identitário” em substantivo.

José Quitério foi um caso único. Não se vê que possa haver outro. Nem a imprensa é hoje um lugar de criatividade e de descoberta e existência de novos talentos.

Digestivo

Foi em 2003 que a empresa Global Wines (de Carregal do Sal) começou a fazer vinho no Brasil, criando para o efeito a empresa ViniBrasil em Pernambuco. É da ViniBrasil que sai o vinho Rio Sol. Já o tinha visto à venda na loja do grupo que existe associada ao restaurante Quinta de Cabriz em Carregal do Sal mas, perante os vinhos portugueses disponíveis, era diminuta a vontade de o provar. Agora, e pela primeira vez, bebi o Rio Sol, do ano de 2006. Feito com as castas Cabernet Sauvignon e Syrah, apresentava muito atenuadas as características adocicadas da primeira, revelando um bom equilíbrio de sabores. Com os seus doze anos, foi uma surpresa agradável.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

Nenhum comentário

Deixe um comentário