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Alentejo, três dias, três restaurantes

Três dias, três restaurantes, entre Grândola e Melides, onde o Alentejo já se funde com a costa do distrito de Setúbal.


No primeiro (vamos chamar-lhe apenas F, de ambiente não sofisticado) comi um bacalhau com migas, sendo o bacalhau apresentado com um bom molho de azeite e vagamente lascado. Apenas “vagamente” porque a qualidade do bacalhau deixava a desejar, apesar da boa confecção do resto e não parecia ser, na sua totalidade, de qualidade adequada ao efeito.

Os vinhos eram praticamente todos do Alentejo, com um da região. O preço dos vinhos em garrafa começava em 8.50 € (37.40 reais) e ia até aos 150€ (660.16 reais). O vinho a jarro era um dos muitos que têm “Pias” no nome e que as deviam ter como destino, oriundo de Sobral de Monte Agraço. Dois vinhos honestos salvaram a noite: da Adega Cooperativa de Borba e da Quinta Brejinho da Costa (Grândola).

No segundo (S), de ambiente mais cuidado, comi um naco de carne de bovino grelhada, muito bem apresentada, tendo o osso em que foi servido a forma de um machado índio. A lista dos vinhos (de novo, todos do Alentejo) estava drasticamente reduzida. Não havia vinho a jarro. Entrou em cena um tinto da Adega Cooperativa da Vidigueira, interessante, com o preço mais baixo da lista (8€, ou 35.20 reais).

Do terceiro restaurante (T), com um ambiente sofisticado e confortável, comi um bacalhau com broa e grão, realmente bom e com o bacalhau muito adequadamente lascado. Não há vinho a jarro, os vinhos alentejanos são hegemónicos e apetece dizer que, quer ao copo quer à garrafa, os preços são só para visitantes ricos. E é um erro.

Não gostando de vinho doce e a saber a baunilha, e notando a sua predominância entre os tintos alentejanos, não me tenho sentido tentado a beber vinhos do Alentejo. Já gostei mais do que gosto, e foi interessante ver que os que foram bebidos nesta jornada mantêm o perfil tradicional, com as castas adequadas, dos tintos alentejanos que conheci em tempos.

Do vinho a jarro, e frequentemente o faço, é possível, na dúvida, pedir um copo para o provar. Umas vezes aceita-se, outras não. De preço mais baixo, o que não quer dizer de qualidade mais baixa, aceita-se que o cliente o rejeite se não gostar. Em garrafa é quase impossível. Se estiver estragado ou com o sabor a “rolha”, será normal que aceitem a sua rejeição. Mas por uma questão de gosto, recusar a garrafa do que não se conhece e tentar outro, e talvez outro? Será bastante mais difícil.

Este é um problema da ausência do vinho a jarro. Outro é o preço. Ter vinho servido a jarro e a um preço razoável, a par com uma admirável garrafeira, é o que faz, por exemplo, o restaurante Naco na Pedra (em Salir do Porto, Caldas da Rainha). Não ficam manchadas a honra e a qualidade do restaurante. Pelo contrário, porque o vinho a jarro é escolhido com critério e tem sempre qualidade. Ter, apenas, garrafas que, muita vezes, têm à mesa o triplo do preço de compra do supermercado é que deixa marcas, pelo menos em quem gosta de vinho e de acompanhar a refeição com vinho.

Gastronomicamente, qualquer um destes três restaurantes é interessante e poderei sentir-me tentado a voltar a eles, mas a questão do vinho arrefece-me o ânimo. É que assim, não. E ali mesmo ao lado está, pelo menos, o restaurante Tia Rosa, onde servem um pato assado magnífico… e com vinho a jarro. E onde nunca tive dúvidas em ir.

Digestivo

Talvez já seja altura de uns, por uma questão de honestidade, deixarem de apresentar vinhos “de Pias” (com os nomes mais extravagantes e mais ridículos) e de outros, os que escrevem sobre vinhos e a quem as empresas não lhos devem oferecer, denunciarem o que já começa a ser uma desonestidade e um ludíbrio. Podem, legalmente, fazê-lo mas é uma atitude manhosa, e tanto mais manhosa quanto vem mesmo de produtores que procuram alguma fama, e que claramente ludibria os consumidores. E nisto até é pouco saudável, deixando lugar a muitas dúvidas, que na própria vila de Pias e entre os produtores da região, reine o silêncio.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

 

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  • Preciso d apoio de enologos(a) para o curso de Cozinha e Nutrição coomunitária, em parceria com as escolas públicas. Os(a) alunos(a) precisam saber reconhecer, degustar cada tipo de bebida. Para recomendar seu consumo d’acordo o paladar do cliente e com o prato p/ele escolhido, proponho a semana de iguarias e igualdade na Bahia n’ inverno / verão. Com a fièL feira de gastronomia evangélica ai. Pretendo também apresentar Mestres / alunos(a) ao mercado para que possam serem contratados(a), ou representar adegas / vinhedos.

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