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Bolsonaro, motoqueiros e a democracia ameaçada

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No sábado, 13, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, apareceu em fotos distribuídas pelas agências de notícias à frente de uma manifestação de milhares de motoqueiros que atroaram os ares da cidade de São Paulo com os roncos dos motores e os adornos habituais. Dizem que seriam uns dez mil.


Se estivessem apeados, seria uma pequena manifestação na grande metrópole. No entanto, o aparato e o barulho dos motores que circularam durante mais de três horas pelas avenidas da capital paulista podem ter levado à perceção de que se tratou de um grande evento.

De capacete e roupagens tribais, tão do agrado de grupos de motoqueiros que se costumam fazer notar por exibições mais ou menos truculentas, Bolsonaro e alguns dos seus acólitos, em mais uma manifestação de desprezo pelas leis, desfilaram sem máscaras.

A manif de motoqueiros, mobilizados por algumas igrejas evangélicas neo pentecostais e por grupos bolsonaristas, comandados pela família presidencial, foi o ensaio dos tempos que virão.

Acuado pela perda de apoios, em praticamente todas as franjas sociais, Bolsonaro tem vindo a dar crescentes sinais de radicalização. A caminho das eleições legislativas e presidenciais que ocorrerão em finais de 2022, o presidente da República tem vindo a usar a máquina do Estado para abrir antecipadamente uma campanha eleitoral que se antevê perigosamente dramática.

O presidente já deixou claro que não só irá concorrer a um segundo mandato como só aceitará a reeleição como único resultado, ainda que as mais recentes pesquisas de opinião indiquem que eventual candidatura de Lula significaria pesada derrota para o atual ocupante do Palácio do Planalto.

Num clima de catástrofe nacional causada pela pandemia da covid-19, agravada pelas políticas criminosas de negação, de ignorância e de provocação prosseguidas pelo presidente da República e pelo seu governo de extrema-direita, garantidas pela ala mais reacionária de antigos generais, reformados uns ou na ativa, outros, Bolsonaro tem vindo a procurar intimidar não apenas adversários políticos, mas o país, na sua generalidade.

Na última sexta-feira (11), em mais uma das suas viagens de propaganda, à custa do erário público, Bolsonaro esteve no município de São Mateus, no Espírito Santo. Na ocasião, voltou a defender o uso da cloroquina para o tratamento da covid-19 – já denunciado pelos especialistas e entidades internacionais de saúde como ineficaz ou mesmo perigoso – e ameaçou o país com o uso das Forças Armadas. “Tenho as Forças Armadas ao meu lado, sou o chefe supremo delas”, disse Bolsonaro.

Demagogo e manipulador, afirmou a uma plateia de autoridades locais e seguidores: “Desde o início da pandemia estive no meio de vocês, nas comunidades mais pobres de Brasília. Criticado por isso, poderia ter ficado no Palácio da Alvorada com todo o conforto do mundo, mas sempre preferi ficar ao lado do povo, sabendo que tinha um vírus mortal. Fui acometido do vírus e tomei a hidroxicloroquina”.

“Talvez eu tenha sido o único chefe de Estado que procurou o remédio para esse mal [covid-19], tinha que aparecer alguma coisa. Ouvi pessoas que tinham conhecimento sobre o caso, mas quando eu falei que aquilo [a cloroquina] poderia ser bom, a oposição abriu uma guerra contra a gente”, afirmou. “Não vou esmorecer. Não sou cabeça dura, sou perseverante; lutamos para salvar vidas, enfrentamos os mais variados e cruéis desafios”.

Numa outra passagem do seu discurso afirmou: “Tenho as Forças Armadas ao meu lado, sou o chefe supremo delas. Jamais elas irão às ruas para mantê-los em casa. Poderão, sim, um dia ir às ruas para garantir a sua liberdade e o seu bem maior, que é aquilo previsto em nossa Constituição”.

Bolsonaro parece ter entrado numa nova etapa do seu projeto de radicalização. Face à pressão democrática de órgãos do poder, nomeadamente do legislativo e do judiciário, designadamente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investiga o que o governo fez e não fez, para defender os brasileiros da pandemia, e da sociedade civil, o presidente da República insiste em atacar outros órgãos de poder, minimizar a pandemia e ameaçar o país com o recurso às Forças Armadas, para se manter no poder.

A política de trevas em que Bolsonaro e seus coadjuvantes procuram mergulhar o país e a espiral de violência e caos em que apostam para se manterem no poder só poderão ser travadas se, quanto antes, as forças democráticas e progressistas conseguirem chegar a uma plataforma de entendimento, em que os vários intervenientes, de diversos quadrantes ideológicos, estabeleçam a unidade necessária para fazer face à truculência e à ameaça bolsonarista.


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