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Bolsonaro, as manifs e a viagem de Marcelo

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Milhões de brasileiros voltaram sábado, 25, às ruas do Brasil em centenas de protestos que decorreram nas principais cidades do país. De norte a sul, intensificam-se os protestos e as palavras de ordem que pedem o “impeachment” de Bolsonaro, o presidente que não escuta o clamor das ruas. Enquanto isso, Marcelo, o presidente português, prepara a mala para ir até São Paulo e Brasília. Destinos que bem conhece. Vai dar uma ajudinha à diplomacia lisboeta.


 

Uma visita que Marcelo Rebelo de Sousa faz numa conjuntura política, econômica e social nada favorável a Bolsonaro e  seus acólitos, fardados e desfardados, que agravaram tragicamente a crise sanitária pandémica e  insistem em políticas econômicas avulsas que impedem, objetivamente, o desenvolvimento.

Bolsonaro aparenta não ouvir o clamor das ruas e procura ganhar tempo na tentativa de se blindar para fugir às responsabilidades a que possivelmente será chamado a responder, quando, por força das urnas ou de um processo de “impeachment”, tiver de deixar a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes.

Impedir o avanço de algum dos muitos pedidos de “impeachment” que já foram formalizados na Câmara dos Deputados e procurar construir alianças para as presidenciais de 2022 estão no centro da agenda diária do presidente.

Com estes objetivos, Bolsonaro dedica-se a  mobilizar o “exército” de deputados e senadores venais que, à medida que aumenta o isolamento político do presidente, vão elevando a fasquia das contrapartidas exigidas para lhe darem a sustentação necessária de modo a inviabilizarem a abertura do processo de afastamento. Por enquanto, tem tido algum êxito. Mais de uma centena de pedidos de “impeachment” permanecem engavetados por decisão do presidente da Câmara, Arthur Lira.

Um posicionamento que pode mudar em função de vários fatores, entre eles o aprofundamento das revelações vindas a público no âmbito dos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à atuação do governo federal face à pandemia de covid-19, que decorre no Senado.

É neste quadro que, no início da próxima semana, o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, irá encontrar-se em Brasília com Jair Bolsonaro.

Marcelo, em visita ao Brasil para a reinauguração do Museu da Língua Portuguesa, cuja reconstrução foi possível graças, fundamentalmente, a duas entidades privadas – a portuguesa EDP e a brasileira Globo – e ao governo do estado de São Paulo, aproveitará para construir pontes, a chamada “diplomacia de afetos”.

Em nota divulgada segunda-feira (26), em Lisboa, o Palácio de Belém anuncia que Marcelo, além de Bolsonaro, terá encontros com os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Lula e Temer.

Do que possa sair do encontro com Bolsonaro, além da retórica habitual da amizade e fraternidade, comum às chancelarias de Brasília e Lisboa, nada de muito significativo deverá resultar. O Itamaraty, desde há algumas semanas com um novo ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França, aparentemente com a missão de reverter a imagem ideológica de extrema-direita e de seguidismo em relação ao ex-presidente norte-americano Donald Trump do seu antecessor Ernesto Araújo, procura quebrar o isolamento político de Bolsonaro em boa parte do mundo.

Para Portugal, por outro lado, a quase indiferença e, em vários casos, a má-vontade com que tem sido tratado pelos governantes brasileiros, desde a ex-presidente Dilma Rousseff – a presidente e não o petismo -, até ao atual ocupante do Palácio do Planalto, é uma barreira que precisa ser superada.

No meio de tudo isto, há questões em que Lisboa e Brasília podem ter interesse em obter soluções no curto prazo. E, uma delas, no campo da pandemia, é o reconhecimento mútuo das vacinas contra a covid-19 aplicadas nos dois países. Um assunto que tem dificultado a mobilidade dos cidadãos, sobretudo de brasileiros e portugueses radicados no Brasil imunizados com vacinas não aplicadas na União Europeia.

Resulte o que resultar da viagem de Marcelo a Brasília, seja pouco ou nada, é quase certo que Belém, como é usual, não deixará de dar destaque ao encontro presidencial. Marcelo pode ter várias fragilidades mas o que não lhe falta, certamente, é a capacidade de comunicar e de transformar um limão, por amargo que seja, numa boa limonada.

Quanto aos encontros com Lula, FHC e Temer, o presidente português poderá sempre dizer que são de grande importância para uma boa leitura do cenário político brasileiro a caminho das eleições presidenciais em finais de 2022.

 


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