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Brancos

Ouvi, não há muito tempo, um “especialista” referir-se numa prova de vinhos aos “brancos de esplanada”. O conceito, proferido mesmo nas barbas de produtores que também os fazem, não deixa de ser uma variação do outro conceito de que “o branco é refresco” com que se desvalorizam os brancos. No fundo, os refrescos sabem melhor num dia de verão, numa esplanada, não é?

O “especialista” não me merece grande crédito mas, decerto que involuntariamente, e sem pôr de lado o conceito do “refresco”, a expressão que usou não está muito longe de uma das realidades dos nossos dias vitivinícolas.

Há hoje uma grande variedade de vinhos brancos com algumas características comuns: um sabor a tender para o adocicado e com reduzida acidez, uma cor que se aproxima mais do bege claro do que do amarelo, uma impressão de que nada têm a ver com diferenças de região, “terroir” e castas, uma graduação a tender para o baixo. Entre o “refresco” e o consumo “de esplanada”, poderá acrescentar-se-lhe outro pormenor: sabem quase sempre ao mesmo.

Mas será assim que queremos os vinhos brancos? Será assim que os próprios produtores os querem? Repare-se que, mesmo num país de clima temperado, não haverá grande apetência no Outono, no Inverno e no começo da Primavera para ir para esplanadas beber refrescos.

Em certa medida, até poderá ser este o corolário da opção por castas estrangeiras (como a Chardonnay ou a Sauvignon Blanc), que confere aos vinhos uma identidade com padrões de consumo “modernos”.

Portugal tem, no entanto, boas castas brancas cujo resultado estará sempre distante, no seu perfil tradicional, dos “brancos de esplanada”. Com mais grau, sabores mais fortes e até capazes de romperem a dicotomia brancos-peixe e tintos-carne, os vinhos das castas Alvarinho (a grande casta dos vinhos verdes brancos), Loureiro, Malvasia Fina, Arinto ou Maria Gomes – se não forem descaracterizados – são muito mais do que “brancos de esplanada” para serem, como sempre foram, vinhos de mesa, para serem bebidos à refeição (e fora dela, claro).

Mais do que estas castas, a Encruzado (a grande casta branca do Dão, como o é a Touriga Nacional nos tintos) é a que mais potencial tem, no imediato mas também a longo prazo. Os seus vinhos estão longe da superficialidade frutada dos outros brancos e afirmam-se como excelentes companheiros de mesa. Nos últimos anos tem aumentado a oferta de brancos do Dão com Encruzado (sozinho, ou em mistura) mas o aumento da oferta não tem trazido consigo, em muitos casos, uma diferenciação relativamente a outros vinhos. É como se os produtores, reconhecendo a importância da “marca” Encruzado, quisessem ir atrás dos padrões da moda.

Conhecendo-os, e não escondendo a minha preferência pelos brancos de Encruzado, há três onde esta casta, e em boa combinação com outras, brilha a grande altura.

Em monocasta, os brancos da Quinta da Fata (Vilar Seco, Nelas) são os melhores, e têm registado um apuramento ainda mais significativo, como é o de 2015. Com outras castas, os brancos da Quinta do Escudial (Vodra, Seia) são muitos bons (com destaque também para o de 2015), combinando a Encruzado (45%) com Barcelo, Malvasia Fina e Rabo de Ovelha. Finalmente, o que há pouco tempo também foi uma surpresa, o branco Premium (2016) da Adega Cooperativa de Penalva do Castelo, onde a Encruzado tem só uma presença de 20% com Malvasia Fina, Cerceal Branco e Borrado das Moscas.

São bons vinhos para a mesa de Inverno e, por isso mesmo, também bons para a esplanada do Verão.

 DIGESTIVO

… Mas não gele os brancos. O frio em excesso mata os sabores. O ideal, mais do que tê-los no frigorífico ou usar o congelador para uma urgência, é recorrer a um recipiente apropriado (o “frappé”)  para receber a garrafa que se quer arrefecer e gelo à medida. Há muitas variedades no mercado mas continuo a preferir o balde metálico para esse efeito. Pôr a garrafa sobre o gelo, com alguma água, e deixá-la refrescar-se lentamente, enquanto o ambiente se compõe para lhe receber o vinho é uma boa maneira de apreciar o vinho branco de qualidade, em qualquer estação do ano.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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