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Carta Aberta ao Presidente João Lourenço – Angola e a reconciliação com a História

Angola vive uma nova etapa na construção da sua história. Uma etapa com os olhos postos no futuro, mas que não pode ignorar o seu passado feito de sofrimentos, de conquistas, de erros e de vitórias. De avanços, de recuos, de injustiças, de perversões, de ignomínia.

Tempos de guerra e de paz. Para abrir as portas do futuro, os povos e os protagonistas da história – que somos todos nós -, precisam batalhar, de mãos limpas e peito aberto, pela reconciliação e pelo reconhecimento dos erros, de uns e de outros. As tentativas de dar saltos na história têm, frequentemente, consequências trágicas. A vingança dos vencedores é cruel. Mas, os caminhos do tempo, o tempo do imbondeiro, ajudam a abrir, a uns e outros, novos horizontes.

Os sites África 21 Digital e o Portugal Digital abrem espaço à divulgação de uma Carta Aberta ao Presidente de Angola, assinada por luso-angolanos que um dia acreditaram numa Angola próspera e mais justa. Uma esperança, uma crença que nunca morre.

Alfredo Prado

 

Íntegra da carta dirigida ao Presidente de Angola, que tem como primeiros subscritores Zé Reis, Zé Fuso, Jorge Fernandes, Edgar Valles e Jorge Marques “Big”.

 

Exmo Senhor Presidente da República de Angola

João Gonçalves Lourenço

A sua chegada ao poder em Angola reanimou a esperança perdida, depois de o ouvirmos manifestar a necessidade de uma Reconciliação com a História.

Toda a História tem a sua história para contar e é assim que nós, os signatários desta carta, nascidos durante o colonialismo, fomos daqueles que, contagiados pelo espírito nacionalista e revolucionário que o MPLA original nos transmitiu, se entregaram à luta anti-colonial, por uma sociedade justa, progressista e multirracial que o programa do MPLA então defendia. Alcançamos, com o sacrifício sabido, a independência de Angola a 11 de Novembro de 1975, mas, chegados a 27 de Maio de 1977 fomos presos, enxovalhados, torturados e sobrevivemos à tragédia, ao contrário do que sucedeu com muitos “desaparecidos”, homens e mulheres, na sua maioria jovens que se entregaram à revolução angolana.

Há mais de 40 anos que temos vindo a apresentar, em uníssono com as suas famílias, junto das autoridades angolanas, em particular do ex-presidente da República e do MPLA – Partido do Trabalho, José Eduardo dos Santos, aquilo que se pode considerar o mínimo dos mínimos de reposição de justiça na memória coletiva.

Nunca nos foi dada resposta, tão pouco a mais singela esperança. Hoje, nós, sobreviventes do 27 de Maio de 1977, observamos sinais de boa vontade, enquanto ilustre dignitário da nação, dispondo-se à devolução dos restos mortais, à reabilitação e ao reconhecimento público de antigas figuras, sejam elas do MPLA, de outros agrupamentos políticos, religiosos ou de meros cidadãos angolanos, estamos expectantes e empenhados em conhecer os procedimentos que irá intentar em breve, assim acreditamos, em relação aos “desaparecidos do 27 de Maio de 1977”.

Senhor Presidente, relativamente a este processo que deixou marcas tão profundas na sociedade angolana, esperamos que, com a assistência das entidades competentes, tal sejam os arquivos do ex-Tribunal Militar, ex-Tribunal Popular Revolucionário, ex- DISA e do MPLA, e dos não menos relevantes interventores do Estado Angolano ainda vivos, seja elaborado e divulgado o registo de todos os detidos e dos depois desaparecidos. Em particular, dos desaparecidos, seja dada nota às famílias da razão do seu desaparecimento, e na circunstância deste ter resultado em morte, a devolução dos seus restos mortais para que se procedam os funerais e seja por fim iniciado o luto, acto determinante na aquietação de muitas famílias angolanas. sem prejuízo, naturalmente, de outras medidas posteriores que se impõem no respeito pela Dignidade Humana

Lisboa, 19 de Novembro de 2018

Os signatários,

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Escrito por: Portugal Digital

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