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Como se “comunica” o vinho? (2)

Em termos práticos, o que acontece é isto: o leitor cujo interesse tenha sido suscitado pela notas de prova das revistas, e já nem falo em enófilo, em termos absolutos, sabe que há… mas não sabe onde.


Falámos, na semana passada, das notas de prova das duas revistas de vinhos existentes em Portugal, assinalando, na grande maioria, a ausência de informações sobre as castas de cada vinho. A essa ausência há que adicionar outra: onde é que se podem encontrar (e comprar) os vinhos “provados”?

Muitos dos que são mencionados nas notas de prova são de quintas, que dificilmente terão capacidade de chegar a todas as cadeias de supermercados em todo o País. Podem, como às vezes se verifica, chegar só a uma. E deverão conseguir, naturalmente, colocar uma parte da sua produção em garrafeiras e em restaurantes. Mas quais? É impossível sabê-lo.

As notas de prova, aliás, também não remetem para os sites das empresas produtoras. Em alguns será possível comprar “on line”. Noutros apenas se consegue ficar a saber que, existindo o vinho pretendido, será necessário telefonar… a perguntar onde é que ele se pode comprar.

Em termos práticos, o que acontece é isto: o leitor cujo interesse tenha sido suscitado pela notas de prova das revistas, e já nem falo em enófilo, em termos absolutos, sabe que há… mas não sabe onde.

A situação é tanto mais curiosa quanto fica a dúvida sobre a origem dos vinhos submetidos às notas de prova. Foram adquiridos no mercado pela revista e pelos seus colaboradores? Foram oferecidos pelas empresas? Sendo-o, estas não querem dizer onde é que podemos comprá-los? Ou é uma opção dos provadores e/ou das revistas? Ou ninguém pensou nisso?

A situação, o que não deixa de ser interessante, é replicada nos anúncios de vinhos das mesmas publicações.

Vejamos o caso da revista “Vinho – Grandes Escolhas”. Com 144 páginas, tem 23 páginas de anúncios de página inteira e 12 de meias páginas e um quarto de página a vinhos. (Com uma particularidade: uma reportagem sobre os brancos do Dão é acompanhada por publicidade… aos vinhos do Dão.) Estamos, portanto, a falar de 35 empresas que fazem publicidade aos seus vinhos (num paralelismo igualmente curioso, acumulam-se vinhos nas “notas de prova”
e na publicidade) e que, pagando essa publicidade, caem no mesmo erro: onde é que eles podem ser comprados? Não se sabe. Com uma excepção, no entanto: a Quinta de Lemos (Silgueiros, Dão) indica expressamente onde é que os seus vinhos podem ser comprados, fora da sua própria sede.

Por outro lado, se há anúncios que se percebe serem quase “artesanais”, há outro de elaboração mais industrial, talvez feitos pelas mesmas empresas que se ocupam da comunicação dessas mesmas empresas produtoras. Ninguém, nestes casos, se lembrou desse pormenor?!

É possível que haja pessoas, em Lisboa e no Porto e noutras cidades com garrafeiras de grande qualidade e maior variedade, a usaram estas revistas, as suas notas de prova e a sua publicidade para comprarem vinho. Acredito, no entanto, e pelo que vejo, que a grande maioria das pessoas compra vinho nos supermercados. A essas, este modelo das revistas não lhes serve. Sabê-lo-ão as empresas produtoras?

DIGESTIVO

A empresa Global Wines tem, na sua sede de Carregal do Sal, um restaurante simpático de grande nível e com uma política de preços módicos para os seus próprios vinhos à mesa: é o restaurante Quinta de Cabriz. “Cabriz” (e já não Quinta de Cabriz) foi o nome também escolhido para um dos vinhos desta empresa, comercializado como vinho do Dão. Teve um prémio internacional e é bastante conhecido, talvez pelo preço amigável com que é comercializado mas sobretudo porque está… em todo o lado, em todos os supermercados, em todas as feiras de vinhos, em todos os restaurantes, inesgotável e omnipresente. Mas eu, que prefiro os vinhos do Dão acima de todos os outros e vejo o Cabriz em tudo quanto é sítio, não o bebo.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: Portugal Digital

Último Comentário

  • Estou de acordo com o diz. Resido no Rio de Janeiro e tomo nota dos vinhos que por vezes são comentados em notas de prova e etc. Mas quando vou à Portugal, não consigo encontra-los.
    Seria interessante saber onde comprar tais vinhos.
    Abraços,

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