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Como se “comunica” o vinho? (3)

O sector vitivinícola devia repensar as suas opções em matéria de comunicação dos seus produtos. Se tem sabido inovar na sua produção, também tem de inovar no que se refere à promoção (eficaz e lucrativa) do que produz.


“Uma família de puros sangues alentejanos”, “Preservámos a essência. Libertámos a aparência.”, “Vê o lado positivo!…”, “Vinhos Verdes por Excelência”, “Uma realidade feita amor! Vinhos premium”, “Vnhos de corpo e alma”, “A excelência da natureza”, “Grandes Escolhas. Grandes Momentos.”…

São estas as frases em destaque em alguns anúncios de vinhos, acompanhados por imagens das garrafas, de vinhas, de areia e conchas de praia, de tonéis e outros cenários ou sobre fundos de cores mais ou menos contrastantes. Em alguns anúncios (e estes aparecem nas duas edições das revistas que antes citámos) nota-se que houve trabalho mais elaborado. Outros são mais artesanais, talvez fruto de trabalho artístico interno. Outros são mais improvisados. Todos eles indicam contactos, on line ou outros. E sobre os vinhos, propriamente ditos? Nada.

Quem quer comprar um carro, até tem oportunidade de fazer um “test drive”, quem quer ir ao cinema pode procurar um filme-anúncio, quem quer comprar um livro pode folheá-lo, quem quer comprar um relógio pode pegar-lhe e revirá-lo, quem quer comprar um smartphone pode experimentá-lo. E o vinho, pode prová-lo? Não.

A publicidade ao vinho está (e referindo-me apenas aos anúncios) desajustada. Não a vejo, salvo raras exceções (e já com “nome” no mercado), na imprensa “mainstream”. Nas publicações especializadas ou “comerciais” aparecem, mas com estas limitações, em geral.

É possível que exista qualquer tipo de estudo sobre a eficácia da publicidade das empresas vitivinícolas. Mas, e posso estar errado, não acredito que aquilo que investem na publicidade seja compensado pelas vendas. Poderá sê-lo, talvez, em alguns casos de vinhos mais caros e que mais facilmente se vendam em casas especializadas. Mas o grosso das vendas há de ser (sem contar com as exportações) nos supermercados. E aí, em geral, o que é que existe?

Garrafas com rótulos e contra-rótulos e os respectivos preços. Até há algum tempo fazia as minhas compras num supermercado da cadeia francesa E. Leclerc e deparava-me aí com ofertas frequentes de provas de vinhos, na sua maioria alentejanos. Poucos provei e comprei com base nesse contacto (mas do Dão e do Douro). Penso que é a maneira mais directa de contactar com o público e de aproveitar a publicidade tradicional.

Frequentando agora um supermercado da cadeia Pingo Doce, noto que não há provas mas que todas as semanas há promoções, em que os preços podem chegar a cair para metade, ou menos. Não é um desprestígio e funciona. Mas não se pode provar.

Há poucos meses, como já tem acontecido, houve uma apresentação no Brasil de vinhos portugueses de várias regiões, envolvendo produtores, exportadores, importadores e imprensa. Feitas as apresentações, no terreno ficaram os importadores. É assim que os vinhos portugueses se conseguirão impor no Brasil? Duvido.

Em Portugal o vinho português rivaliza… com o vinho português. No Brasil rivaliza com os vinhos das Américas, e é caro. O que em tempos se apresentou vai caindo no esquecimento. Os importadores trabalham com várias marcas e dificilmente perderão tempo (e dinheiro) a promovê-las a todas. Este é um mercado que precisa, e continuadamente, de tudo: das notícias, da publicidade tradicional, da publicidade informal (as notas de prova), do esclarecimento e das provas públicas. Mas a tendência tem sido para deixar que se instale o vazio depois da promoção: os exportadores não investem na comunicação, os importadores têm mais em que pensar (como as marcas que já são campeãs de vendas).

O sector vitivinícola devia repensar as suas opções em matéria de comunicação dos seus produtos. Se tem sabido inovar na sua produção, também tem de inovar no que se refere à promoção (eficaz e lucrativa) do que produz.

DIGESTIVO

Pedro Garcias, jornalista que no “Público” escreve sobre vinhos, publicou há poucos dias e com o título “E o melhor vinho do mundo é… português, claro. O que este caso dos melhores vinhos do mundo nos mostra é uma relação cada vez mais promíscua entre agências de comunicação e jornalistas”, um texto sobre o modo como os jornalistas são, ou
podem ser, influenciados. A questão é a dos prémios internacionais dos vinhos, que devia no entanto ser explicada com maior pormenor. Mas talvez não pelo autor do texto, que escreve profusamente sobre os vinhos dos outros… sem deixar de ser produtor de vinho, ele próprio.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: Portugal Digital

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