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Daqui não saio…

O Brasil é, sem dúvida,  o país das emoções fortes. Tão fortes que, muitas vezes, ficam descontroladas. E isso acontece em quase tudo. Também na política e nas crises. Há praticamente três anos que o Brasil está mergulhado numa crise sem fim à vista. Crise política, crise econômica, crise social. Crises para todos os gostos.  Crise para mais de 14 milhões de desempregados formais e outros tantos, pelo menos, com trabalhos de faz-de-conta…

Tamanha é a crise que, por vezes, se tem a sensação de que ela já se perdeu no passado. Mas não é assim. De repente, ela irrompe com força insuspeita. E é precisamente isso que está a acontecer desde a noite de quarta-feira, quando o site G1, do influente grupo de mídia Globo, tocou trombetas para anunciar a presumível morte política do presidente Temer.

Já lá vão uns bons anos, quando, recém-chegado a terras mineiras, me disseram que o PMDB nada tinha a ver com o velho MDB da luta contra a ditadura militar.  Que não era, na realidade, um partido, como aqueles forjados nas lutas de classe e ideológicas da velha Europa, mas, sim, um autêntico balcão de negócios. Ouvi,  com alguma dúvida, é verdade, o que me diziam. Afinal, alguns nomes conhecidos de gente que se tinha oposto aos generais estavam nas suas fileiras.

Passadas mais de duas décadas, admito que a minha fonte pecou por defeito. É que balcões de negócios são grande parte dos partidos que ocupam os assentos do Congresso Nacional. De negócios escusos. Como o mostram as investigações que, contra ventos e marés, a Lava Jato vai levando por diante. Se me perguntarem se é possível mudar essa realidade, direi que sim. Mas, as condicionantes são muitas. Com o atual sistema político e partidário não mudará nada. E, com a atual composição do Congresso ( Senado e Câmara dos Deputados), o mais que poderá ser feito são operações de maquiagem…

Numa agradável noite de março – como são quase todas em Brasília -, especialmente quando se habita no conforto palaciano à beira do lago, o presidente Temer recebeu Joesley Batista.

Pelo nome, o cidadão comum diria que poderia ser um anônimo, como milhões de pessoas honradas deste imenso Brasil. Talvez até dissesse que, pelo nome, não deveria ter os pergaminhos das velhas famílias paulistas que colecionam ramos de árvores genealógicas desde os dias do Brasil colônia ou, pelo menos, do Brasil império.

Não,  Joesley Batista não é um pacato cidadão. JB – não sei se usa monograma  nas camisas – é dono, com a família, de um grupo industrial de processamento de alimentos, líder mundial. Só nos States são mais de cinquenta fábricas. Um grupo grande em tudo: principal beneficiário de financiamentos do estatal Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a JBS é também o maior financiador de campanhas eleitorais do Brasil.

Pois foi Joesley Batista quem tramou Temer nessa noite. O megaempresário entrou no Jaburu com o à-vontade dos que se habituaram a circular em corredores palacianos. Ele foi pedir a Temer ajuda para resolver um diferendo com a Petrobras. Isto foi parte da conversa, que se prolongou por cerca de quarenta minutos. Resolvida essa questão – tendo Temer indicado a Joesley um deputado federal do PMDB,  assessor de confiança de há muitos anos, a quem o empresário poderia contar “tudo”, mesmo “tudo” -, o dono da JBS  abriu o verbo ao interlocutor atento.

Disse ao presidente do Brasil que estava a pagar uma choruda “mesada” ao ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha,  e ao “operador” financeiro do PMDB, Lúcio Funaro, para “manterem o bico fechado”. Ambos presos à ordem do juiz Sérgio Moro.

E é aqui que a história se complica. Temer teria respondido que o empresário deveria continuar a sustentar – principescamente, suponho – o bico dourado de Eduardo Cunha. Estaríamos num cenário de hipóteses, eventualmente de palavra contra palavra, se não tivesse acontecido o imponderável. Joesley Batista levava no bolso um gravador. E terá sido essa gravação áudio, entregue pelo empresário ao Ministério Público, que levou o Supremo Tribunal Federal a abrir um inquérito contra Temer.

Mais que o aval, explícito ou não, do presidente à mesada para Cunha e Funaro, a gravidade reside no que Joesley disse a Temer, Presidente da República, sobre a Lava Jato e o que andava a fazer para mudar os rumos das investigações.  Uma conversa imprópria.

Temer fez,  a meio da tarde de quinta-feira (18), um breve discurso ao país. Enfático, afirmou: “Não renunciarei, não renunciarei”. Uma afirmação que parece só ter agradado aos seus colaboradores mais próximos, vários deles também sob investigação. Opositores e alguns dirigentes dos partidos aliados já se preparam para abandonar Temer ao seu próprio destino.

“O presidente Michel Temer decidiu desafiar a crise. Politicamente, ele já foi julgado. Não tem mais condições de governabilidade. Neste momento grave de crise, ele optou muito mais pela imunidade institucional do que pela realidade que passa o país, com mais de 14 milhões de desempregados […]. O gesto que se esperava era a renúncia, para dar mais celeridade a uma solução para a crise. No momento em que ele resolve desafiar a crise, não existe outro instrumento que não seja trabalhar o processo de afastamento [impeachment] do presidente.” O comentário não saiu da boca de um dos opositores. Foi feito por Ronaldo Caiado, líder do Democratas (direita), e publicado pelo jornal O Globo.

Em menos de 24 horas foram apresentados ao Congresso oito pedidos de impeachment.  E o Brasil vai sangrando…enquanto Temer e os seus próximos procuram ganhar tempo. E Lula? E Dilma? A acompanhar nos próximos capítulos!

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Escrito por: Portugal Digital

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