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De derrota em derrota

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Alfredo Prado


Os governantes norte-americanos provaram, mais uma vez, o sabor amargo da derrota. Chama-se Afeganistão. Outros revezes marcam o histórico dos que querem ser os donos disto tudo. Vietname, Iraque, Irão, Líbia, Somália são outros tantos exemplos de guerras de ocupação ou intervenções armadas que fracassaram.


No caso do Afeganistão, os EUA quiseram fazer o que outros ocupantes não conseguiram, ou seja, controlar militarmente o país e “ocidentalizá-lo”. Os britânicos foram corridos a pontapé e os soviéticos tiveram de retirar após dez anos de desgaste, que abriu as portas ao fim da URSS, como lembrou, há dias, Vladimir Putin.

Uma aventura para a qual Washington arrastou os seus aliados europeus. Quase todos quiseram dar uma bicadinha no Afeganistão. Uma bicadinha que se prolongou por duas décadas. Nem os portugueses escaparam à força de atração do tio Sam. Soldados do “cantinho à beira mar plantado” também por lá andaram, acreditando, talvez, que cumpriam um desígnio civilizacional. Lêdo engano…

A última participação portuguesa na tragédia foi o envio de quatro soldados para o aeroporto de Cabul. Quatro. E assim foi a contribuição lusa para a retirada de milhares de afegãos que, pelos mais diversos motivos, receiam – e certamente com muitas e boas razões – enfrentar uma obediência forçada aos sátrapas locais.

Não tenho qualquer simpatia por fanatismos religiosos ou políticos, sejam eles quais forem. Mas, aprende-se, ou não, nos manuais de história, que todos os povos devem ser livres de escolher o seu destino e de dirimir, de preferência pacificamente, as suas diferenças e antagonismos. As intervenções militares nunca ou raramente tiveram consequências positivas para os povos.

Ao longo de duas décadas de ocupação militar nada de bom aconteceu ao povo afegão, que não conseguiu ver-se livre do fanatismo religioso e político dos senhores da guerra e dos campos de ópio. A guerra contribuiu, sim, para aumentar exponencialmente a corrupção, a violência, a prostituição, o crime organizado. Males sociais que serviram para dar força aos grupos de talibãs que entraram em Cabul, a capital, sem praticamente darem um único tiro.

O Estado afegão, sustentado por Washington e outros mais, evaporou-se. O presidente fugiu. Os soldados entregaram as armas. Os polícias fizeram o mesmo. Cabul caíu sem que um tiro tivesse sido dado. Os talibãs chegaram à capital sem qualquer resistência. A máquina de guerra dos EUA resguardou-se no aeroporto. Estava tudo combinado.

Os pormenores do acordo secreto, entre a Casa Branca e os senhores de guerra afegãos, serão conhecidos, mais dia, menos dia, como acontece quase sempre. De fora do acordo, ao que parece, ficaram os terroristas do Estado Islâmico. Criminosos, com as mãos ensopadas no sangue de inocentes, em nome de um deus forjado à revelia do Islão, reeditando crueldades passadas de outras confissões religiosas, ocidentais, quiseram mostrar ao mundo que continuam a existir. E a violência terrorista foi, mais uma vez, a arma escolhida.

Dezenas de afegãos, homens, mulheres, crianças, pagaram com as vidas, quinta-feira, dia 26, o preço de uma guerra insensata. Treze soldados norte-americanos serão sepultados nos Estados Unidos, envoltos na bandeira das estrelas. Biden prometeu vingar os seus soldados. Com mão pesada. Os outros, dezenas de afegãos, serão sepultados envoltos num lençol branco, quase anónimos. Sem honras militares e salvas de canhão. Receberão lágrimas de despedida e as preces dos crentes.

Enquanto Biden enfrenta o desgaste de uma retirada atabalhoada, os seus aliados europeus tentam pressionar os talibãs de Cabul para que assumam compromissos políticos e formem um governo com alguma prática democrática, segundo padrões ocidentais. Não será fácil. Do lado de fora do aeroporto de Cabul, quando se conta as horas para a retirada total dos “marines” norte-americanos, milhares de afegãos que serviram, direta ou indiretamente, as tropas de ocupação, receiam pelas próprias vidas. Eles sabem que o respeito pela vida e por direitos não são características dos senhores da guerra, de barbas medievais, que voltaram ao poder. O Afeganistão continuará a ser um país sufocado e adiado. E, rapidamente, voltará a ser esquecido deste lado do mundo.


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Escrito por: Portugal Digital