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Democraticamente…cúmplices

O resultado não surpreendeu. Era esperado. A habilidade política de Michel Temer é conhecida. Não foi difícil persuadir uma Câmara de Deputados frágil, sem grandes convicções ideológicas ou sequer programáticas, na sua maioria, a defende-lo da acusação de corrupção passiva apresentada pelo procurador-geral da República, Ricardo Janot, ao Supremo Tribunal Federal.


O diálogo da conversa comprometedora gravada entre Temer e o patrão da JBS, Joesley Batista,  cuja autenticidade foi comprovada por técnicos oficiais, ou a mala com 500 mil reais entregue a um homem de confiança de Temer e apreendida pela Polícia Federal, não foram suficientes para demover os parlamentares de optarem pelo apoio ao presidente.

Na noite de quarta-feira (2), a Câmara dos Deputados votou.  E decidiu arquivar a denúncia de corrupção passiva contra o presidente Michel Temer. Do total de 492 deputados presentes, 263 votaram a favor do arquivamento, 227 defenderam o prosseguimento do processo judicial contra Temer, houve 2 abstenções e 19 parlamentares ausentes.

Os aliados de Temer conseguiram mais votos do que esperavam e a oposição menos. O presidente não poupou esforços para barrar a denúncia. Um apoio garantido com verbas das chamadas emendas parlamentares, generosamente entregues aos deputados, com jantares e com promessas de empregos na alta administração pública a correlegionários ou parentes dos deputados. Tudo em nome da prometida recuperação econômica do país, de que Temer se ufana diariamente sem que os resultados correspondam ao marketing presidencial.

Afinal, a compra de consciências, como se sabe, não é um exclusivo de Temer. Lula foi um mestre. E outros, muitos outros, que os antecederam nos gabinetes palacianos, nunca hesitaram em governar e assegurar o poder através da barganha, transformando as instituições públicas em balcões de negócios.

O que aconteceu ao longo do dia desta quarta-feira, na sessão plenária da Câmara, transmitida em direto pelas televisões, mostrou, além da troca de insultos, do empurra-empurra, dos esboços de cenas de pugilato, uma séria divisão em torno da permanência de Temer no Palácio do Planalto.

A governabilidade, já difícil, deverá ficar ainda mais comprometida. A expectativa de que o presidente possa conduzir um programa de recuperação econômica, sustentada por vários dos seus apoiantes, poderá estar destinada ao fracasso.

O resultado da votação (menos de 40 votos de diferença), embora garanta a permanência de Temer no poder, até ao final de 2018, deixa antever acrescidas dificuldades governativas, sobretudo num quadro em que a crise econômica, longe de estar superada, ameaça aprofundar-se, com a falência eminente de vários estados, como já acontece no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, entre outros, e o agravamento da dívida fiscal.

A decisão hoje tomada pela Câmara dos Deputados irá provavelmente prolongar o quadro de crise profunda em que o Brasil está mergulhado.  A defesa de interesses inconfessos e de imposição de políticas conservadoras irá prosseguir em confronto aberto com a maioria da sociedade que deseja o primado da ética e da lei. E novas denúncias contra o presidente da República poderão surgir a qualquer momento.

Temer já avançou, logo que foi conhecido o resultado, com o discurso do “virar de página”, de “pacificação” do país, como tem repetido em mensagens colocadas nas redes sociais.  Mas Temer não tem a confiança da população. Terá – por quanto tempo não se sabe – o apoio de alguns setores empresariais beneficiados com medidas avulsas. O Brasil precisa de reformas, sim, mas reformas que sirvam os interesses do país, da nação, e não reformas corporativas, como o governo tem desenhado.

Por enquanto, o Brasil continuará a conviver com um presidente suspeito de corrupção, graças à cumplicidade de parlamentares, muitos deles venais, a braços com a Justiça, cujo lugar no Congresso Nacional só é possível em função de um sistema político e partidário que urge ser discutido, único caminho para o regresso do Brasil ao rumo do desenvolvimento, do progresso, da justiça social e ao primado da ética. O sonho de Temer passar à história como um “reformista” parece cada vez mais distante de se tornar realidade. A vitória de hoje sinaliza tempestades no horizonte. O entusiasmo de fim de noite tem todos os condimentos para se tornar em amarga ressaca. O Brasil merece mais e melhor democracia.

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Escrito por: Portugal Digital

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