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E o que é que se bebe com comida exótica?


E no que se refere a um “chop suey” ou a sarapatel? Qual é a melhor bebida para acompanhar um prato destes? Não há uma receita perfeita.


À cautela, por causa da polícia do pensamento que vigia o cumprimento do “politicamente correcto”, convirá salientar que, ao falar em “comida exótica” estou a falar de pratos que não fazem parte da tradição gastronómica portuguesa. É o caso do “chop suey” chinês e do sarapatel indiano.

O primeiro é uma mistura rapidamente cozida de carnes e de vegetais, com destaque para a vaca, frango e aipo, e que pode também ter camarão, e o segundo é um prato refogado feito à base de vísceras e sangue. O “chop suey” é de origem chinesa e o sarapatel encontra-se em várias culturas, chegando a Portugal por via da gastronomia indiana. As especiarias empregues na confecção, sobretudo no caso do sarapatel, conferem uma individualidade própria a este prato que, aliás, também tem um “primo” afastado na gastronomia portuguesa. Trata-se do aproveitamento das vísceras depois da matança do animal que va ser comido e que é elevado a um estatuto nobre através das papas de sarrabulho do Norte português.

Ninguém que seja apreciador de vinho porá em dúvida que umas papas de sarrabulho (fígado, bofes, goelas e coração de porco, além das carnes mais nobres de galinha e de vaca e de sangue de porco cozido) requerem um vinho tinto pujante, ou um vinho verde tinto com a sua especial acidez. E no que se refere a um “chop suey” ou a sarapatel? Qual é a melhor bebida para acompanhar um prato destes?

Não há uma receita perfeita para garantir a “harmonização” (como agora se diz) entre o que se come e o que se bebe a acompanhar um prato oriental. Pondo de lado a água e os refrigerantes (ou o chá verde), a opção mais adequada continuará a ser, nesta como outras gastronomias, uma bebida alcoólica. No entanto, a presença das especiarias (que não fazem parte do padrão da nossa alimentação) ou de um sabor mais picante (como num caril, que será outro bom exemplo) pode ser mortífera para o sabor do vinho.

Gostando, neste domínio, mais da comida indiana do que da chinesa, costumava ir com alguma regularidade a um restaurante de comida indiana (goesa) chamado Monte Horeb que ficava próximo da minha nova casa, para onde estava nessa altura a mudar-me. Bem localizado, perto da Lagoa de Óbidos, e de ambiente acolhedor e bem decorado, era uma tentação. Depois o restaurante fechou e só reabriu há poucos meses.

Mais adepto, nessa altura, do sabor picante desta gastronomia, bebia cerveja a acompanhar. Agora o meu gosto pelo picante mais intenso e pela cerveja atenuaram-se e, reaberto o Monte Horeb, voltei lá há duas semanas. A cozinha continua a ter a mesma qualidade e pedi um sarapatel, que estava bem condimentado sem estar picante. Para acompanhar pedi cerveja mas achei a ligação um pouco inexpressiva.

Qual poderia ter sido a minha opção? Num casos destes, a opção pelo vinho tinto ou branco poderia ser prejudicial: o sabor mais intenso da comida poderia sobrepor-se ao destes vinhos. Há quem diga que o rosé, sendo doce, liga bem com os sabores orientais mas não me parece. E o vinho verde? Já tem servido para acompanhar comida chinesa em casa, em regime de “take away”, e, em geral, a ligação tem corrido bem.

Fiquei a pensar, no fim desta refeição no regresso ao Monte Horeb que talvez a melhor companhia para um prato de genuína comida indiana seja a do vinho verde, branco ou tinto. Com o seu carácter esfusiante, este vinho verde trava um pouco o predomínio dos sabores mais fortes que as especiariais dão às gastronomias orientais e pode ser o ideal para uma “entente cordiale” destas com os vinhos portugueses. É uma experiência a fazer quando regressar ao Monte Horeb.

DIGESTIVO

E que o vinho verde não é exclusivista mostra-o o que parece ser uma sugestiva experiência doceira: bombons de chocolate das pastelarias Ameadella, de Viana do Castelo e de Ponte de Lima, com a aguardente velha Alvarinha, aguardente de vinho da Adega Cooperativa Regional de Monção feita só com a casta Alvarinho, numa combinação gerada na região dos vinhos verdes, no Norte do País. Farão de certeza boa companhia a refeições de comidas exóticas com vinhos (verdes) portugueses.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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