Redes Sociais:
HomeOpinião“É um Barca Velha, mas geladinho”

“É um Barca Velha, mas geladinho”

Contaram-me, e não há de ter sido caso único, que num dos restaurantes clássicos da Baixa de Lisboa, um cliente obviamente de posses, pediu deste modo o vinho para o almoço: “Traga-me um Barca Velha, mas geladinho.”

O empregado de mesa, experiente e sabedor, hesitou e desapareceu. Quando reapareceu, voltou de mãos a abanar e, com ar contristado, disse ao cliente: “Neste momento não temos Barca Velha.” Mas tinham, numa garrafeira de fama.

Esta história não é só um exemplo dos equívocos que se geram em torno da temperatura de serviço dos vinhos. Neste caso, à exibição do poder de compra (o Barca Velha é, desde há muito, o vinho tinto português que é o mais caro de todos) associava-se a exibição da ignorância. Comprava-se o mais caro de tudo e consumia-se da maneira mais errada. Mas no restaurante imperaram o bom senso e o profissionalismo e evitou-se a indignidade.

Há quem pense que, no tempo quente, o vinho pode ser, todo ele, bebido fresco. E até se aceita uma refrigeração, com argumentos discutíveis que vão para lá de uma simples adequação da temperatura bebida à temperatura ambiente: estando o tempo quente, o vinho tinto já não fica tão “quente” e/ou “pesado”.

Mas pode ser um erro. A temperatura muito baixa “anestesia” o vinho, tira-lhe o sabor, torna a sua maturação mais lenta. E podendo ser recomendável para guardar os vinhos tintos, não o é para os servir e beber, indiscriminadamente. A refrigeração do vinho tinto pode, com cuidado e sensibilidade, aceitar-se para vinhos mais carregados em que, por exemplo, a casta Castelão seja predominante. E poderá ser recomendável, embora não à temperatura do frigorífico, para os verdes tintos, de sabor mais acre e também mais carregado.

Quanto aos vinhos brancos, a refrigeração parece ser mais consensual: são bons é “geladinhos”. Mas não são. O princípio é o mesmo: a temperatura muito baixa reduz-lhes o sabor.

Nos vinhos brancos hoje padronizados, isso é um drama: o sabor e o aroma tardam a acordar, a revelar-se. Dá ideia de que ficaram mesmo anestesiados no fundo da garrafa. E o que se bebe é um líquido refrescante, com um ligeiro sabor a vinho e a graduação inerente. A situação é agravada pelas mangas de plástico que vêm logo para a mesa, sem critério. O erro não só se mantém, como é reforçado. Por outro lado, nos vinhos brancos de maior personalidade, acontece o mesmo que aos tintos: o frio adormece-os, sufoca-lhe o gosto e os aromas. Mata-lhes a personalidade.

“Geladinho”, se o leitor assim quiser beber, é melhor o vinho verde, que sobrevive normalente com garbo ao assalto das temperaturas mais baixas. Esqueça os brancos tipo refresco e os rosés deslavados e ainda os tintos condenados à morte no gelo e opte por um vinho verde. E só fará boa figura, sem precisar de ter um poder de compra resistente a todas as temperaturas da vida…

DIGESTIVO

Nos brancos que só precisam de um ligeiríssimo toque de frio, de abertura algum tempo antes de serem bebidos e de copos altos adequados à melhor apreciação dos aromas, a referência inevitável são os da casta Encruzado (do Dão). Como monocasta, o Encruzado branco (de 2015) da Quinta da Fata é imprescindível. Com outras castas brancas além do Encruzado, o branco da Quinta do Escudial (também de 2015) é outra referência fundamental. São ambos excelentes companheiros de mesa para todas as ocasiões.

 

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

Compartilhar

Escrito por: Portugal Digital

Nenhum comentário

Deixe um comentário