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Está tudo bem?…

E se respondermos que não, que não está?…

Não me refiro ao já tradicional cumprimento social inicial que começa com “Tudo bem?” ou, na versão menos preguiçosa, “Está tudo bem?”. “Como vai isso?” ou “Passou bem?” são outras variantes mais portuguesas. A todas, suponho, não se espera que ninguém responda com pormenores. Não está tudo bem, porque… uma resposta pormenorizada de um desgraçado deve ser um susto para quem pergunta.


Será esta a lógica dos restaurantes? Hoje em dia tornou-se um hábito, que é transversal a todo o tipo de restaurantes, o empregado que está de serviço à mesa (e, às vezes, outro qualquer também) vir fazer a mesma pergunta. E será que espera uma resposta que revele, por exemplo, que o peixe sabe a podre, que a carne está mal cozinhada, que o acompanhamento seco está empapado, que tem tudo sal a mais? Suponho que não. E talvez nem saiba o que deve fazer numa circunstância dessas.

Não me recordo, felizmente, e nos tempos mais recentes, de me ter encontrado numa situação em que a resposta que de imediato se impunha ao “Está tudo bem?” fosse uma descrição dos males do restaurante e do que foi servido.

Já desisti de um ou outro restaurante mas não por um prato intragável, experiência a que felizmente, tenho sido poupado. A apreciação faço-a no fim da refeição, sem prejuízo de, não gostando de qualquer coisa, me pronunciar de imediato. E não volto. Também já há muito tempo que não peço o livro de reclamações num restaurante. Teria de haver uma sucessão de desastres e uma incorrecção absoluta do serviço prestado para o pedir.

O “Está tudo bem?” parece ter-se transformado num ritual mecanizado. Não interessa se a abordagem do empregado interrompe uma conversa mais tranquila ou mais íntima dos clientes ou se estes estão concentrados na comida e na companhia. O empregado aproxima-se, sem nada nas mãos (portanto, não nos vem servir), quase fica à espera que possamos dar pela sua presença e depois dispara o “Está tudo bem?”.

Numa situação destas, a tendência será para dizer que sim e, desse modo, deixá-lo ir à sua vida e continuarmos nós com a nossa. Portanto: “Tudo bem”.

Mas também se percebe que, num caso ou noutro e quando já existe alguma familiaridade, o empregado venha mesmo perguntar por interesse. Poderemos poupar-lhe uma descrição elogiosa “gourmet”, mas se a refeição está  mesmo a correr bem, será honesto responder-lhe que sim. E se não for o caso, a sinceridade é sempre a melhor resposta.

Será que o “Está tudo bem?” faz parte do que se ensina nos cursos de hotelaria? Onde, como tantas vezes acontece, se dá mais prioridade ao que é assessório do ao que é essencial?

Num dos casos do “Está tudo bem?”, num restaurante que muito prezo e onde aparecem em estágio estudantes, ou finalistas, do sector, a mesma pessoa que fez a pergunta acabou por fazer também uma coisa que domesticamente se fará mas que não se faz nos restaurantes: conseguiu acumular os pratos nas duas mãos e ir varrendo para um deles os restos dos pratos que levantava da mesa, a cerca de meio metro da cara da cliente.

Esteve “tudo bem”?, portanto. Não. Mas foi neste restaurante um caso único e o respeito para com a casa, e o seu proprietário, levou a que nem se falasse no assunto. E lá voltei, e voltarei.

Digestivo

Mais do que uma moda, que tendo uma evolução natural só mais tarde é que se revela mesmo moda, o vinho rosé está a ser objecto de uma campanha quase brutal nas publicações que têm a ver com o vinho… como se tivesse de ser mesmo uma moda à força, dando para perceber que muitos produtores respeitáveis também enveredaram pela mesma bebida e em grande escala. É negócio, mas não será enofilia, ou a cultura do vinho. Um dia destes ainda haveremos de distinguir entre os produtores de vinhos muitos bons que resistem naturalmente ao rosé e os outros, para quem tudo pode ser possível. Incluindo fazer vinho sem uvas.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: Portugal Digital

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