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Excitações


Um grande amigo meu, de saudosa memória, tinha uma expressão impagável quando se deparava com vinhos muito bons: “Estou-me a expulsar! Mas é que estou mesmo a expulsar-me!…” Não precisava de fantasias para dar a sua avisada opinião…


Repare bem, leitor, nestas notas de prova retiradas de uma revista mensal (cujo nome omito, por pudor):

“Muito elegante nos aromas apetrolados e de breve iodo, flor seca e folha de chá. A acidez gigantesca está perfeitamente integrada com o volume e o toque final, a lembrar tabaco, só o valoriza. Combiná-lo com um charuto poderá levar-nos ao Eden; apreciá-lo a solo é sentirmo-nos pequenos deuses.”

“Notas de restolho e de fruto seco. Bastante tenso na boca, com um volume gigante, em que a acidez nos parece cortar a gengiva. Está com perto de 160 anos mas mantém-se novo. Sim, novo.”

“Aromaticamente distinto de todos os outros. Nota química muito evidente, a lembrar tintura de iodo e verniz. Rugoso e rústico, deixa uma sensação final mais pesada. Do início ao fim, é força bruta e estrutura.”

“Muita fruta passa, figo, pêssego seco, vegetal seco, tabaco e surpreendentemente frescura pela expressão a cítricos desidratados. O verniz e toque a ranço assomam em novas camadas. Envolvente e luxuriante na boca, dinâmico, revigorante e profundo. Final supercomplexo de exotismo, canela, nougat.”

“O nariz é dominado pela fruta, sobretudo citrinos, apesar do estágio de dois anos em garrafa que faz despontar algumas aromas de padaria. Muito vivo e cheio de vigor, na boca mostra bela mousse, cremosa e elegante.”

“Muita groselha e cereja, floral vibrante, muita frescura e alguma concentração. Grafite e algum tostado. Fumado delicado. Muito boa estrutura, refleto de fruta preta silvestre, taninos de belíssima textura, final persistente sempre fresco e fragrante.”

“Limão intenso. Incrível nariz, complexo, salino, ‘savoury’, típico de Lisboa, banhado pelo mar. Grande substância na boca, glicérico, sápido e fresco, com longo final a frutas confitadas.”

“Groselhas, trufa, pedra fusil, cedro, mentolado, paprika, especiarias, em vagas incríveis de carácter. Estrutura poderosa mas de uma ligeireza e precisão assertivas, sem nunca renunciar à elegância. Longo, longo, final esplendoroso, salino, fresco e complexo. Excelente.”

Um grande amigo meu, de saudosa memória, tinha uma expressão impagável quando se deparava com vinhos muito bons e que, respeitando-a na sua integralidade, lhe saía mesmo assim numa tangente feita ao vernáculo nacional: “Estou-me a expulsar! Mas é que estou mesmo a expulsar-me!…” Não precisava de fantasias para dar a sua avisada opinião…

Digestivo

Historicamente relevante na produção vitivinícola do Oeste português, a Casa das Gaeiras (Óbidos) foi recuperada pela empresa Parras Vinhos (de que já aqui falei, a respeito do sempre interessante Cavalo Negro) e o tinto que tem o seu nome tem-se afirmado pela sua qualidade. Já bebi o seu 2017 que, apesar de muito recente, mostra já uma enorme qualidade. Foi feito com as castas Touriga Nacional, Tinta Roriz e Syrah e, em duas ocasiões, acompanhou na perfeição iscas à portuguesa e uma dobrada admiráveis no pequeno mas excepcional restaurante O Recanto, em Caldas da Rainha.. O Casa das Gaeiras é um excelente embaixador da Região Oeste.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: Portugal Digital

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