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A floresta e as pessoas

Sempre defendi que temos uma floresta humanizada e que a floresta não pode ser apenas vista como um conjunto de árvores que produzem madeira ou outros produtos. Sempre rejeitei as concepções de que se podia pegar numa carta geográfica e distribuir as espécies, as diferentes ocupações de culturas e esquecer as pessoas. 

Agora ganha corpo, e apoios, a ideia que são necessárias pessoas nos espaços florestais ou rurais. Aumenta a consciência de que muito da tragédia ocorrida resulta também da desertificação do interior, embora este conceito de interior seja muito relativo para um País que tem pouco mais ou menos 200 kms de largura… 

A questão é como se conseguem “levar/atrair” pessoas para essas regiões?  

Em meados do século XX, a partir de 1936, a Junta de Colonização Interna fez isso, mudou populações para localidades sem gente, atribuiu-lhes um pouco de terra e uma habitação e assim nasceram os colonatos internos, como as Gafanhas, entre o Vouga e o Mondego e outros. A ocupação das Gafanhas visava disponibilizar mão-de-obra para os trabalhos nas salinas, nas secas do bacalhau e na pesca. O colonato de Pegões visava fixar mão-de-obra assalariada agrícola necessária às grandes explorações da zona. Os objectivos eram claramente não os de servir essas pessoas mas outros interesses. Naturalmente que hoje não será assim. 

O problema da floresta e da desertificação começa na necessidade de desenvolvimento rural e de estimular a economia de montanha, sem isso nada feito! 

Para se reconstruir a paisagem de uma forma sustentável, para se criar diversidade é necessário desenvolvimento económico, são necessárias pessoas e isso terá de ser feito em primeiro lugar a partir dos seus próprios recursos. Terá de ser com soluções apropriadas a cada região ou actividade. 

Os resineiros, para além da extracção da resina, limpam o mato à volta das árvores a resinar e são uma presença eficaz em termos de vigilância ou de eliminar qualquer foco inicial de fogo. Deveriam ser remunerados por isso. A resina tem diversas aplicações e é um produto renovável, permite uma receita regular anual, mas atravessa problemas no mercado internacional com a concorrência dos americanos e chineses e tem vindo a reduzir-se a sua extracção. Há alguns anos atrás, quando estudei essa situação, verifiquei que os franceses não podendo subsidiar o produto, a resina, pelas imposições da UE, subsidiavam a “presença”, a actividade como um factor de combate à desertificação. Devia ser uma solução a adoptar em Portugal. 

O gado, cabras ou até bovinos autóctones, pode ser essencial quer para o controlo da vegetação quer para animar a economia de montanha. Ao mesmo tempo que produzem, limpam, estrumam. São as mais eficientes máquinas roçadoras. Mas para ser feito é essencial pensar-se no ciclo completo. Se se quer aproveitar o leite, de ovelhas ou cabras, tem de se fazer pequenos queijos e tratar do seu embalamento atractivo, da sua promoção e comercialização.  

Um boi da raça limousine atinge 1.000 a 1.300kg de peso, e já com possibilidade de abate, com 4 meses alcança 170kg e aos 10 meses 500kg; um charolês cresce rapidamente 1,5kg por dia e um macho pode atingir 1.650kg com rendimentos de carcaça de 60-70%. Agora imaginemos as nossas raças autóctones, maronês, arouquês, mirandês, barrosão, cachena e outras. São pequenos animais, robustos, muitos deles “parecem” cabras, podem pastar em zonas escarpadas, alimentar-se de matos, mas qual o seu peso? Qual o seu rendimento em carne para venda? Arouquesa ou a Maronesa – macho +/- 600kg, fêmea +/- 400kg. Como se conseguiram recuperar estas e outras raças? Valorizando-as pela excepcional qualidade da sua carne, estabelecendo o seu Registo Genealógico e pela institucionalização de Denominação de Origem Protegida DOP que passou a ter melhores preços de venda nos talhos e lojas nas grandes cidades. E ainda muito há por fazer em termos de se lhe associar uma gastronomia apropriada. 

A criação de cabritos de montanha, implica que também seja valorizada a sua carne e promovida a gastronomia que lhe deve estar associada.  

São múltiplos os produtos que se podem desenvolver desde os cogumelos aos frutos silvestres, amoras, medronhos ou outras, dos frutos secos, castanhas, nozes, às plantas aromáticas. Todos eles necessitam de ser embalados ou tratados para adquirirem maior valor e assim também se produzirá emprego. Três exemplos simples: os cogumelos ajudam ao desenvolvimento do sistema radicular das árvores e à absorção de nutrientes mas também têm interesse para consumo, para venda, podem ser consumidos em fresco, ou transformados, laminados e desidratados, ou congelados, em qualquer dos casos necessitam de embalagem, transformação e geram empregos; o medronho pode ser utilizado em consumo em fresco, em compotas ou para aguardente e isto necessita de uma pequena indústria; a carqueja pode ser utilizada na gastronomia, por exemplo o arroz de carqueja. Raciocínio semelhante se poderá referir de actividades várias como a animação turística, a caça ou a pesca em águas interiores.  

Dei apenas estes exemplos mas há muitos outros. Todos terão de ser pensados e apoiados ao nível da economia local, não de exercícios de macroeconomia, e será com base nisso que as pessoas se podem sentir atraídas a irem para o chamado Interior e aí se fixarem. Os apoios não se podem restringir aos jovens agricultores, um homem que aos 50 ou 60 anos perdeu o seu emprego na cidade pode querer regressar à sua terra natal e, se for apoiado, pode ainda aí ter 10 ou 20 anos de actividade e de felicidade. 

A indústria a atrair ou desenvolver deve estar associada às potencialidades e produtos da região, indústria de mobiliário, de madeiras, agro-alimentares ou outras. 

O empenho dos proprietários pela protecção da floresta, seja qual for a espécie, para uma gestão activa e positiva será maior se for justamente recompensado e para isso é necessário transformação industrial, acrescentamento de valor. 

Não é com discursos solenes ou passes de magia que se resolve a fixação das populações e o desenvolvimento rural. É com o estudo de caso a caso, com apoio técnico e financeiro, é também criando melhores condições de vida, escolas, centros de saúde bem apetrechados, etc. 

O problema florestal, a tragédia dos fogos, é também e sobretudo um problema de desenvolvimento rural. 

Vasco Paiva é engenheiro florestal

Último Comentário

  • As crónicas de Vasco Paiva são sempre de leitura agradável e útil.
    Sobre a questão de apoios aos resineiros e do modo como actuaram os franceses, para contornar as limitações da Comissão Europeia, cito outro exemplo, o da Áustria.
    Criaram uma especificação própria para os agricultores que se ocupam das montanhas, em concreto na região dos Alpes, a de «jardineiros da natureza». Recebem um vencimento comparável ao de guarda florestal, pois o seu trabalho é equivalente. Tem obrigações regulamentares, como as de pouso habitacional, em caso de necessidade de intervenção de emergência, mas, a partir daí, podem fazer turismo rural e beneficiar dos apoios que este tipo de industria fornece.
    Quase se podia dizer que é dois em um.
    Ab

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