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HomeOpiniãoGostos não se discutem, eu sei…

Gostos não se discutem, eu sei…


… mas tenho dúvidas de que a questão (porque ela existe) dos vinhos rosés seja de gosto.

Vejamos: eu não gosto de vinho tinto doce, ou adocicado, e é a doce que me sabe, em geral, o vinho da casta Cabernet Sauvignon ou que a tenha para lá de um limite razoável e decente. Gosto, por outro lado, do sabor robusto e que não cabe na definição de “doce” ou “amargo”, de um Touriga Nacional. E esse sabor encontro-o essencialmente nos vinhos de, e com, Touriga Nacional do Dão e do Douro.


A distinção dos sabores encontra-se também nos brancos, embora me pareça que sejam os brancos que correm maior risco de uniformização, por razões comerciais: todos iguais, nada diferentes.

Quanto aos vinhos rosés, o meu problema, e desconfio que não seja só meu, com os vinhos rosés (pelo menos os que, a certa altura, fui provando até desistir) é a sua ausência de gosto. E essa ausência de gosto afasta-me da indefinição dos rosés. É uma situação que até pode ter uma explicação muito lógica: sendo provenientes, no todo ou em parte, de castas tintas, o arrefecimento a que são sujeitos “congela” os sabores próprios dos tintos que também já vêm diluídos da origem. E talvez se pretenda isso mesmo. É como se os rosés fossem mais uma moda gastronómica direccionada para o tempo quente, uma bebida que, sendo formalmente vinho, se bebe fresca e com pouco sabor definido.

Como tal, pode conquistar novos consumidores e, como sempre acontece nestas coisas, registou-se nos últimos anos um aumento dos rosés definidos e parece que já estamos a entrar naquela fase em que há uma minoria de produtores que não fazem rosés e uma maioria que precisa de vendê-lo. E tudo serve.

João Paulo Martins, muitas vezes apresentado como “crítico de vinhos” e que parece privar com diveras empresas vitivinícolas, faz este fim-de-semana uma curiosa defesa dos rosés na coluna que mantém no semanário “Expresso”.

“Existe”, diz ele, “ a ideia de que o rosé é um vinho doce, uma bebida ‘de senhoras’ […] e que, por essas e por outras, não tem lugar a uma mesa de apreciadores. Nada mais errado. Basta olhar para os preços de alguns deles para verificarmos que provavelmente estamos equivocados. É que, com preços de venda de 15, 20 e mais euros, não é seguramente de um produto menor que estamos a falar.” Ou seja, se é caro é bom. O produto não vale por si mas pelo preço.

Elogiando os rosés, o autor vai às origens e escreve mais à frente: “Há várias maneiras de o fazer e uma delas será menos conhecida, que é a junção de branco com tinto. Na região [francesa] de Champagne é mesmo dessa forma que se faz o rosé […] Por cá tal também é possível desde que cada um dos componentes – o branco e o tinto – tenham sido certificados como DOC ou Vinho Regional.” Ou seja, nem branco nem tinto… mas mistura.

Estou certo de que os enófilos poderão agradecer esta sinceridade do autor.

Digestivo

Rosé, não, portanto.

Mais legítimo, mais saboroso, o vinho verde (branco e tinto) é o melhor vinho para ser “companheiro de verão”, como aperitivo, como “vinho de esplanada” e a acompanhar muitos pratos e refeições. Procure, leitor, um verde branco que junte as castas Alvarinho e Trajadura, por exemplo, e até imaginará com maior felicidade que este Verão é afinal como os outros…

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: Portugal Digital

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