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Lisboa e Tejo e tudo…

Seria sobretudo do noroeste de Lisboa que vinha o vinho em barris para ser vendido nas antigas tabernas da capital portuguesa e também em muitas carvoarias, lojas onde se vendia carvão mas onde também havia vinho a copo.

Torres Vedras, mais para oeste a caminho do Oceano Atlântico, era uma das origens. Alenquer era outro. Aveiras, a caminho de Alcoentre, era ainda outro, numa vasta zona que, em média, fica a cerca de 50 quilómetros de Lisboa. Os transportes não eram fáceis mas o vinho lá chegava, provenientes de uma mancha rural dividida sobretudo em pequenas e médias propriedades.

O Noroeste era o que estava mais à mão. Mais para cima ficam a Bairrada e o Dão, a uma distância ainda maior. A necessidade de atravessar o Tejo não facilitava o abastecimento regular dos vinhos da Península de Setúbal que só terá começado a chegar em maior quantidade e variedade a Lisboa com a construção da Ponte Salazar (hoje 25 de Abril). Quanto ao Alentejo… fica longe, muito longe.

Os vinhos do noroeste de Lisboa tiveram sempre boa fama mas, com o tempo, foram ficando mais “em casa”. As adegas cooperativas correspondiam às necessidades locais com vinhos para consumo imediato e o“vinho do lavrador”, “caseiro”, era uma aventura, por vezes bastante interessante.

Foi só em décadas mais recentes que as adegas cooperativas começaram a segmentar os seus produtos e nasceram empresas assentes em quintas e produções mais localizadas, próprias ou adquiridas. Ao vinho corrente juntou-se a produção mais elaborada, com marcas distintas, com vinhos monocastas e castas “imigradas”, como a digna Touriga Nacional ou a xaroposa Cabernet Sauvignon. E o certo é que a Touriga Nacional não parece ter saído diminuída de associações às castas Aragonez e Castelão nos “terroirs” do Oeste.

À qualidade dos vinhos do noroeste de Lisboa juntou-se um outro elemento de vantagem: o preço. Comparativamente com vinhos de outras regiões (Alentejo, por exemplo), os vinhos do Oeste não são caros, talvez por não terem a notoriedade que merecem mas beneficiando de uma qualidade invejável.

É possível, também, que a divisão da regiões vinícolas nesta zona não ajude à notoriedade. O vasto “terroir”, ou conjunto de “terroirs”, que vai do Vale do Tejo à costa atlântica não está identificado como uma única região mas como duas: Lisboa e Tejo. A  região de Lisboa parte de concelhos encostados à capital como Carcavelos e Sintra (Colares) sobe ao longo da costa e já abrange Leiria (a cerca de 150 quilómetros da capital). A região do Tejo estende-se para a margem norte do Tejo.

Apesar das distinções geográficas que podem encontrar-se bem pormenorizadas nos sites da comissão de Lisboa e da comissão do Tejo, não se encontra uma lógica rigorosa para a divisão e, em termos comerciais e de marketing, dificilmente o público, em geral, conseguirá individualizar as duas regiões. E é pena, porque uma só identidade ajudaria a fixar a imagem..

DIGESTIVO

A Bonifácio Wines, empresa de Torres Vedras a funcionar desde 1964, não entusiasma pelos seus vinhos de mesa mas tem uma aguardente vínica velha (com o simples nome de Caves Bonifácio) que é surpreendentemente boa. Com uns modestos 40% de volume alcoólico, não é adocicada e é um exemplo muito significativo do que também sai das vinhas do noroeste de Lisboa: as aguardentes bagaceiras e as aguardentes vínicas velhas. Há de tudo neste segmento e, se descobrir vinhos é uma aventura, descobrir estas bebidas digestivas é uma odisseia. Avance o leitor por sua conta e risco, que não dará a(s) experiência(s) por mal empregue(s).

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: Portugal Digital

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