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HomeOpiniãoMarcha atrás, o Mercosul não existe…e é pena!

Marcha atrás, o Mercosul não existe…e é pena!

A decisão do presidente brasileiro Jair Bolsonaro de retirar o brasão do Mercosul dos passaportes nacionais – movimento contrário ao que se vem praticando há anos na Europa, onde o símbolo da UE vem gravado nos passaportes de cada país membro, contribuindo assim para gerar um sentimento de comunidade – expressa bem o forte sentimento nacionalista de que está imbuída a nova direcção política do país.


Um gesto simbólico que não deixará de ser interpretado pelos outros membros do Mercosul – Argentina, Uruguai e Paraguai – como um sinal mais do desinteresse do Brasil em aprofundar a cooperação e a integração regionais.

É o culminar de um estado de espírito muito presente em certos círculos de Brasília, que tendem a ver no Mercosul mais um entrave do que um estímulo ao desenvolvimento do país.

É pena que assim seja, mas a verdade é que a integração regional está praticamente parada e é possível apontar muitos exemplos da falta de políticas conjuntas nas mais variadas áreas.

Dois casos que vivenciámos pessoalmente ilustram bem essa situação. Na primeira tentativa que fizemos de entrar no Uruguai por estrada, a partir do Brasil, fomos barrados porque Montevidéu não aceita os carros em circulação no Brasil, exigindo um registo especial.

Mais recentemente, tendo esquecido o meu velho relógio no controle de segurança do aeroporto da capital uruguaia, pedi a um amigo que conheci pelo Facebook – o português Carlos Fernandes, há anos radicado no Uruguai – que fosse lá, levantasse o relógio e o enviasse pelo correio. O que ele de facto fez, com enorme gentileza. Até aí, tudo bem. O pior foi o resto. Quando o relógio chegou a Brasília, a Alfândega brasileira taxou-o duas vezes – uma em nome da Federação e a outra em nome do Estado de entrada (São Paulo)!!! Conclusão – valia mais ter esquecido o velho relógio e comprado um novo…

Por estes dois episódios banais vê-se bem em que nível estão a liberdade de circulação de pessoas e bens, que deveriam ser o básico de qualquer projecto de união.

Por vezes criticamos muito – e com razão – a UE pelas suas insuficiências, em particular no que respeita às políticas sociais e o claro distanciamento arrogante das suas elites burocráticas sediadas em Bruxelas.

Mas, meu Deus!: ser confrontados de novo com as barreiras nacionais do tipo daquelas que vivenciámos ao transitar entre o Brasil e o Uruguai, NÃO, MIL VEZES NÃO!

O eventual regresso aos nacionalismos europeus não nos traria nada de bom – como se pode ver já pelos exemplos da Europa de Leste e agora também da Itália. Mais atenção aos interesses nacionais, mais consideração pelos parlamentos nacionais, mais políticas sociais, sim; mas regresso ao passado das barreiras alfandegárias, decididamente não. Bendita União Europeia, pelo que já se conseguiu de cooperação alargada em tantos domínios!

Decididamente, precisamos de mais Europa, não menos! E, já agora, de mais Mercosul, não menos…

*Carlos Fino é jornalista e vive em Brasília.

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Escrito por: Portugal Digital

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