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Não é, nem consegue ser, nem talvez tivesse de ser


Pode ser dos seus modestos 12%. Pode ter sido vítima da intenção de fazer um vinho de aparência mais leve. O certo é que, descansado e aberto com tempo, provado ainda no dia seguinte, não se impôs.


Luís Pato, que desde 1980 produz vinho numa quinta familiar com uma tradição que vem do século XVIII em Amoreira da Gândara, na Bairrada, é um nome conceituado da produção portuguesa de vinho. Não lhe falta a sua quota-parte de inovações (como vinho tinto de uvas brancas) e, com presença activa no estrangeiro, apresenta os seus vinhos como produto da união entre a “precisão técnica do Novo Mundo” e a “tradição secular do Velho Mundo”.

Trabalhando na região da Bairrada, este produtor não se alheou, naturalmente, dos vinhos mais característicos desta região vitivinícola a que está mais associada, como casta tinta, a mal-amada Baga.

Austera, dura e em tudo afastada dos tons doces que caracterizam muitos tintos da moda, a Baga não é uma casta muito apreciada. Talvez precise de ser trabalhada com algum carinho e alguma atenção e, com isso, como o provam os monocastas de Baga da Adega Cooperativa de Cantanhede na sua versão de reserva (“Marquês de Marialva”), tem uma dignidade e uma nobreza muito exclusivas.

É possível que seja por uma questão de mercado, e para ir ao encontro do gosto por vinhos mais adocicados, ou porque nem todos sabem tratar da Baga, que tem havido tendência para a misturar com outras castas. E não deve haver produtor que não se dedique às experiências, tomando a Baga por base e juntando-lhe uvas de outras castas.

Reticente a este tipo de opções, encontrei no entanto no Quinta do Encontro (Global Wines) de 2012, que é uma mistura harmoniosa de Baga com Merlot. Não é, porém, o que consigo dizer do Baga + Touriga Nacional (suponho que seja esta a designação oficial) de Luís Pato, de 2014, que mistura estas duas castas sem indicação de percentagens. Classificado como “Vinho Regional Beira Atlântico” e 12% de volume alcoólico, é apresentado como tendo um “aroma fresco a framboesas”.

Reconheço-lhe o “aroma fresco”, que poderá ter a ver com a sua diminuta graduação. Mas, como aroma, não foi além disso e o resultado foi insatisfatório. A Baga é o que é. Por seu turno, a Touriga Nacional, a grande casta do Dão, tem um sabor pujante e robusto, com aromas e gosto que só se identificam plenamente nos grandes monocastas do Dão, nem sempre deixando a sua marca nos vinhos de outras regiões onde é misturada.

A tendência actual para pôr Touriga Nacional em quase todos os vinhos, em especial de regiões que dela não precisam (Alentejo, principalmente, e Noroeste de Lisboa), acaba muitas vezes por esconder esta grande casta portuguesa e, em certos casos, dá origem a vinhos com um carácter híbrido que não são nem uma coisa nem outra, se por acaso a sua graduação é mais elevada, ou que se revelam débeis, desprovidos de força (no caso de uma graduação diminuída), ou, com maior precisão, castrados, sem ânimo, literalmente impotentes perante qualquer prato mais sofisticado.

É, em certa medida, o que acontece com este Baga + Touriga Nacional. É um vinho que não é, não consegue ser… nem precisava de ser aquilo que não consegue. Pode ser dos seus modestos 12%. Pode ter sido vítima da intenção de fazer um vinho de aparência mais leve. O certo é que, descansado e aberto com tempo, provado ainda no dia seguinte, não se impôs. Não foi capaz de deixar impressão, nem boa nem má.

Pode ser que agrade a certos públicos menos conhecedores ou menos sensíveis aos aromas e sabores dos vinhos tintos. Mas o enófilo que assina estas linhas não ficou convencido.

É possível que Luís Pato, apresentado como “inconformista” e “pioneiro”, tenha tido razões comerciais para lançar este vinho ou que tenha querido fazer mais uma experiência. Mas o “inconformismo” nos vinhos não assegura, só por si, bons resultados.

Digestivo

Pedro Garcias, jornalista e produtor de vinho que escreve no “Público” sobre… vinhos, assinou neste jornal há um mês um texto enigmático que, com o título “Engana-me que eu gosto e outras considerações sobre o lado negro do vinho”, termina do seguinte modo: “Conheço produtores que são uns arrogantezinhos mas que fazem vinhos muito bons. Posso sentir-me tentado a não gastar um euro com eles, mas não tenho o direito de os boicotar ou avaliar mal só porque os seus criadores não são pessoas recomendáveis. Se um criador for mais do que vaidoso ou arrogante e produzir os seus vinhos com dinheiro obtido de forma criminosa, é diferente. Sabendo do crime, tenho a obrigação moral de o denunciar. Não o fazendo, faz de mim cúmplice.”. Quem será o alvo desta tirada?

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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