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A novilíngua no prato e no copo

 

Há um certo tique snob no “degustar”. Não se prova, não se bebe, nem se come. “Degusta-se”. É como se provar, comer ou beber fossem gestos que parecem mal, que estão talvez demasiado presos aos prazeres da vida.


Há uma moda no melancólico jornalismo português que ainda vai sobrevivendo que é tão repulsiva como reveladora.

É o uso excessivo de palavras oriundas da língua inglesa que, tendo correspondência (e mais simples) em português, são no entanto as que predominam: “resiliência”, “supostamente”, “alegado”, “colocar” (em vez de “pôr”), por exemplo. O desvario é completado pela perda do “se” nos verbos reflexivos.

Poderá argumentar-se que a evolução da língua passa por aqui. Mas é, infelizmente, mais do que isso. Os hábitos de leitura do português mais correcto (básico, por exemplo: Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro) perderam-se; os mais novos (com os veteranos resguardados ou desaparecidos) julgam-se muito importantes por serem jornalistas, ou candidatos a; nos jornais já parecem ter desaparecido as secções de revisão; o contacto com a língua inglesa, natural e inevitável, passa por uma absorção snob de muitas palavras e expressões. E também disfarçam a ignorância com o enfeite de palavras que visam traduzir o que pensam ser um estatuto cultural e social superior.

O que se escreve sobre gastronomia e vinhos está, naturalmente, contaminado. A existência desta coluna levou-me a comprar, regularmente, as duas revistas de vinhos que se editam em Portugal. Pouco tenho aprendido mas, entre outras bizarrias a que aqui já me referi, lá estão elas e abundantes: “degustar” ou “harmonizar com”.

Não gosto da palavra “degustar” (três sílabas) ou “degustação” (quatro). Ela significa “provar” (duas sílabas), ausente dos textos por motivos que se desconhecem. Há um certo tique snob no “degustar”. Não se prova, não se bebe, nem se come. “Degusta-se”. É como se provar, comer ou beber fossem gestos que parecem mal, que estão talvez demasiado presos aos prazeres da vida, e (pensarão os cultores do “degustar”) por isso incapazes de expressar a falsa distanciação que os pequenos e médios “especialistas” devem ostentar nestas coisas. Como santos virginais.

“Harmonizar com” refere-se à ligação entre vinhos e comidas. Faz parte do jargão e, como tantos outros verbos, perdeu o “se”. Quando muito, deveria escrever-se “[o vinho] harmoniza-se [com o prato]”. Mas não. Talvez também dê muito trabalho.

Portugal foi um país que sofreu, e durante muito tempo, com uma austeridade de pensamento absolutamente nociva. Foi a Inquisição (cujos efeitos de longo prazo ainda perduram), foi o pequeno terrorismo da I República, foram as quatro décadas do Estado Novo. E é agora a tendência para um pensamento único, onde convergem a arrogância do poder (temporário, é certo, mas há que aproveitar) e os piores tiques estalinistas.

George Orwell, no seu romance “1984”, descreveu um mundo inspirado nas piores décadas da União Soviética, com a população sujeita entre outras coisas, a uma língua simplificada, asséptica, controlada pelo Estado, a “newspeak”. A tradução portuguesa chamou-lhe “novilíngua” e a palavra, bem construída, ficou no nosso património cultural. E é, muito objectivamente, o modelo da actual linguagem jornalística. “Degustar” e “harmoniza com” fazem parte desse léxico.

DIGESTIVO

Referi-me, na semana passada, ao vinho Quinta do Penedo, que será proveniente de uma propriedade que foi de um político do Estado Novo, o general Santos Costa, em Alcafache (Dão). Os acasos têm destas coisas e dias depois encontrei-o na soberba carta de vinhos do restaurante Naco na Pedra, em Salir do Porto (Caldas da Rainha). Era o da colheita de 2012, com apenas 12% (o que é uma graduação baixa, num caso destes), com Touriga Nacional (70 por cento) e Alfrocheiro (30 por cento). E, na realidade, o sabor era o dos vinhos dessa propriedade que o Clube do Vinho comercializou. Não o “degustei”. Provei-o e bebi-o, e soube-me bem numa ligação harmoniosa com um belo “goulash” de touro bravo,

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: Portugal Digital

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