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O aprendiz de feiticeiro e as intenções

 

O Brasil está a menos de um mês de ter um novo presidente. Jair Bolsonaro, se tudo correr como programado, subirá no dia 1. de janeiro a rampa do Palácio do Planalto, em Brasília, para receber a faixa presidencial.  Será apenas mais um presidente, à semelhança de muitos outros que o precederam, que não deixaram legado significativo, além de promessas e, eventualmente, um punhado de boas intenções?  Ou Bolsonaro fará parte do grupo de presidentes cujos mandatos são marcados pela imprevisibilidade e pela conflitualidade? Só o tempo dará respostas a estas questões.


O ex-capitão do Exército, na reserva, que passou as últimas três décadas numa poltrona da Câmara dos Deputados como parlamentar federal, saltitando de partido em partido, sem qualquer intervenção legislativa digna de nota, começou a ganhar visibilidade recentemente graças a um estratégia de provocações que lhe renderam espaço mediático.

Bolsonaro, aproveitando a mais recente crise política, econômica e social do Brasil, causada por corrupção institucionalizada e aventureirismo político, com falsa fachada de esquerda, apostou no lançamento de uma candidatura marginal aos principais partidos institucionais, quase todos eles maculados por crimes de corrupção e de lavagem de dinheiro. Criminalidade de alto padrão. Para a sua caminhada vitoriosa, surpreendendo a generalidade dos políticos e analistas, contou ou foi estimulado, ao que tudo indica, com apoios discretos de setores poderosos dos meios castrenses.

A dimensão ou estrutura dessa rede de apoios do generalato, se se vier a confirmar, ainda está por definir. O fato é que, até o momento, pelos menos seis oficiais-generais, além do vice-presidente da República eleito, Hamilton Mourão, general, já foram anunciados para postos-chave do governo.

Bolsonaro foi eleito no dia 28 de outubro, em segundo turno, com votação expressiva. O adversário, Fernando Haddad, que apareceu aos olhos de milhões de eleitores como um ventríloquo do ex-presidente Lula, do PT, a contas com a Justiça por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, conforme a sentença proferida por tribunal de segunda instância, similar a Tribunal da Relação na estrutura da Justiça portuguesa, não quis distanciar-se do discurso petista de vitimização de Lula.

A rejeição de amplas camadas sociais, de todas as classes, ao petismo, que governou o país durante 14 anos e que fechou com o impeachment de Dilma Rousseff, protagonista de seis anos de presidência desastrada, marcada pela incompetência e pela deriva, foi decisiva para a vitória de Bolsonaro.

Os dois anos de governação de Temer, também ele suspeito de corrupção e aliado de ocasião do petismo, de que foi vice-presidente da República, antes de substituir Dilma, não conseguiram reduzir a animosidade. Bolsonaro aproveitou a oportunidade. O PT, na sua velha ambição de controlar e dirigir de forma hegemônica as forças progressistas,  recusou admitir a derrocada e estabelecer entendimentos equilibrados com partidos do campo da esquerda. O resultado final tornou-se evidente logo no primeiro turno.

Bolsonaro conquistou a presidência da República com confortável vantagem. Desde então, o presidente eleito tem-se desdobrado em declarações mais ou menos confusas, mas, de um modo geral,  reacionárias. O script parece ser o de um mau filme. Sob a capa da necessária luta contra a corrupção e da promessa de parcimônia na gestão da máquina pública, o elenco de ministros anunciado pelo presidente-eleito parece uma manta de retalhos, sem programa definido. Bolsonaro aposta na política-espetáculo, uma espécie de versão tupiniquim do populismo reacionário de Trump, o ídolo do próximo presidente do Brasil.

Os comentários e anúncios feitos nos últimos dias pelo presidente-eleito e pelos seus próximos, usando as redes sociais, não auguram nada de bom para a fragilizada democracia brasileira. Do meio ambiente – os ataques à fiscalização ambiental, ao acordo de Paris sobre mudanças climáticas ou às organizações não governamentais (Ongs) – às relações externas – as críticas às políticas da União Europeia e a acordos internacionais -, passando, ainda no plano interno, pelos ataques a entidades políticas e organizações sociais – são fonte de preocupação.

Os tiques e manifestações de caserna – a saudação militar ao conselheiro de Segurança Nacional do governo Trump, John Bolt, um civil, com quem se encontrou esta semana no Rio, ou a manifestação de seguir a administração Trump na decisão de mudar a embaixada do Brasil em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém , afrontando decisões internacionais – são prenúncio de tempestades, que, caso se concretizem, poderão agravar ainda mais a crise em que o Brasil continua mergulhado.

Mas, também pode acontecer que tudo não passe de fogo de palha. Afinal, Bolsonaro ainda não começou a governar. Por enquanto, o país apenas conhece manifestações avulsas de intenções. Muitos dos que votaram em Bolsonaro, já dizem, à cautela, que não, que não votaram em Bolsonaro, que votaram, sim, para afastar o PT do poder. Intenções…

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Escrito por: Portugal Digital

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