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O Brasil ainda tem ao seu dispor poderes democráticos

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O Brasil chora mais de meio milhão de mortes. Mais de meio milhão de pessoas, de todas as idades e de todas as condições, que perderam a vida para o vírus da covid-19. No início, as lágrimas das mães e pelas mães, as lágrimas dos filhos, dos país e dos amigos foram derramadas quase invisíveis, envergonhadas, no aconchego de um quarto, à beira de uma sepultura. Depois, à medida que a pandemia foi avançando, no país desprotegido, as lágrimas cresceram e juntaram-se numa corrente impetuosa.  O Brasil é hoje um país de luto. Um luto perene pelos que partiram e pelos que continuam a deixar-nos, todos os dias.


A ciência que a humanidade vem construindo, passo a passo, ao longo de séculos, para se proteger e ir conquistando, pouco a pouco, graças aos novos conhecimentos, melhores condições de vida, foi e é espezinhada neste país que, um dia, alguém disse que teria sido abençoado por deus.

A pandemia chegou a todos os continentes. Espalhou-se com a velocidade vertiginosa da globalização e entrou no interior das casas nos cantos mais recônditos do planeta, daqueles que se acreditava estarem à margem do planeta. No tempo da Londres de Shakespeare, a epidemia instalou-se e foi devorando vidas por quase uma década. Hoje, apesar dos milhões de mortes que se acumulam por todo o mundo, temos mais meios de combater e de nos defendermos de vírus que não nos são familiares.

Apesar das desigualdades e dos egoísmos nacionais que se embrulham em bandeiras, fomentados pelos interesses inconfessáveis de grupos que, de uma forma ou outra, mais ou menos constitucional, se entrincheiram nos poderes, contamos com uma ciência mais célere e mais eficaz do que a que nos socorria há não muitos anos atrás. Uma ciência capaz de fazer frente a esses escolhos que, geração após geração, nos confrontam. E, provavelmente, continuarão a confrontar.

O presidente do Brasil está no polo contrário à ciência. Os seus discursos e comentários distinguem-se pela ignorância, pela grosseria e pela avidez pelo poder. Os seus tiques autoritários e ameaças evidenciam desprezo pela humanidade. E à medida que as oposições parecem começar a perceber que o Brasil exige uma ampla unidade democrática, capaz de aglutinar diversas correntes, Bolsonaro comporta-se como um indivíduo acuado, ciente dos prejuízos que causou ao país, nos mais variados planos, do político ao econômico e social. Em momentos de maior crispação, parece perder as estribeiras e não hesita em ameaçar o país com o recurso às Forças Armadas, seguramente à margem da Constituição que jurou cumprir e respeitar.

No afã de tentar blindar-se com eventual reeleição, nas presidenciais que terão lugar nos finais de 2022, Bolsonaro, com a cumplicidade dos acólitos, parece apostar no assalto ao aparelho de Estado, procurando aprovar uma reforma administrativa que, a acontecer, tornaria a administração pública num gigantesco cabide de empregos, muito mais do que já acontece em diversos setores. Só na administração pública federal poderia colocar diretamente noventa mil assessores, nos mais diversos postos, conforme alerta, esta semana, um artigo da jornalista Miriam Leitão. Seria uma enorme farra de potenciais “cabos eleitorais”, certamente gratos aos seus benfeitores.

Bolsonaro é adulto, na posse de todas as faculdades mentais, julgo eu, e, assim sendo, poderá ser chamado a prestar contas ao país. Mais vale antes do que depois. A história está repleta de exemplos dramáticos e trágicos de pequenos ou grandes ditadores que nutrem, em geral, profundo desprezo pela humanidade. O Brasil ainda tem ao seu dispor poderes democráticos, constitucionais, capazes de impedir o esfacelamento do país.


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