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O Brasil no espelho

(Resposta a um amigo português e outro brasileiro sobre a complexa questão do relacionamento entre os nossos dois países)

O esquema interpretativo que os brasileiros aplicam quando olham para Portugal é o de nação colonizadora contra nação colonizada, quando na realidade, em 1822, data da independência do Brasil, não havia duas nações – havia só uma que se cindiu (na altura, índios e escravos negros, como se sabe, não contavam).


E para que se cindisse foi necessário que se operasse uma inversão de significados. Isso é muito claro nas cartas de D. Pedro ao pai, D. João VI. Em Novembro de 1821, o filho jurava com sangue que jamais seria perjuro e os que queriam a independência teriam de passar por cima do seu cadáver primeiro; mas, poucos meses depois, era já ele próprio que assumia a liderança do movimento pela separação.

A elite que fez a independência era a que estava centrada no Centro-Sul, de origem portuguesa e portuguesinha da costa, como José Bonifácio, o “patriarca da independência”, que viveu a maior parte da vida em Portugal, onde chegou a integrar os batalhões académicos da Universidade de Coimbra que lutaram contra Napoleão e a si próprio se considerava “bom vassalo e bom português”.

Ou seja, eles deram continuidade ao que já estava – a monarquia como sistema, apenas moderada pelo constitucionalismo, que era a moda do tempo à qual não se podia fugir, e continuando também com a escravatura. Foi a típica mudança retratada no célebre filme de Visconti, O Leopardo – mudar alguma coisa para que tudo ficasse na mesma.

Só se separaram porque não queriam voltar a entregar o centro do Império a Lisboa como pretendiam os liberais vintistas portugueses reunidos nas Cortes de Lisboa, onde estavam também deputados do Brasil como representantes das províncias que integravam o Reino Unido.

Os liberais portugueses tiveram boa responsabilidade na separação porque, inspirados no centralismo da revolução francesa, queriam voltar a colocar Lisboa no centro da hegemonia imperial, quando o que deveriam ter feito era negociar e reconhecer a autonomia própria que o Brasil já tinha adqurido com D. João VI, quando foi elevado a Reino Unido, em 1815.

Uma solução federativa teria aberto espaço para um império luso-brasileiro. A Nação, ao cindir-se, matou o Império.

Depois, a partir daí e até hoje, o que vemos é a necessidade do Estado brasileiro criar a nação brasileira que na época não existia ainda. E o antiportuguesismo surgiu como expediente para isso. O que é uma contradição manifesta no que respeita aos líderes hegemónicos desse processo, que eram todos portugueses; mas quanto mais portugueses, mais antilusitanos se tornaram…

O expediente também serviu entretanto para criar um bode expiatório capaz de centrar o descontentamento das vítimas sociais e políticas do processo – os indígenas e os escravos – virando-os contra os portugueses, colocavam-se a si próprios a salvo da possível fúria dos oprimidos e assim evitavam a repetição do que se passara no Haiti, onde uma revolta de escravos, anos antes, varreu tudo.

A consequência negativa de tudo isso, dessa rejeição da herança lusa, que nunca verdadeiramente aceitaram, foi a criação, por recalcamento da memória, de um complexo de enormes proporções porque desvalorizam aquilo que não podem rejeitar e está dentro deles – no sangue, na língua, na religião, nos hábitos, nos costumes.

A memória portuguesa é sistematicamente desvalorizada – a descoberta de Cabral foi por acaso, o desbravamento do território foi feito pelos bandeirantes paulistas (como se eles não fossem, também, portugueses), e tudo o resto que é lembrado dos lusos é negativo: os portugueses trouxeram o estado burocrático, estamental e corrupto, dizimaram os índios, destruiram a mata atlântica, instauraram a escravatura, levaram o ouro… E D. João VI, tal como foi retratado no filme da Globo D. Carlota Joaquina, de final dos anos 90, era um tonto sujo e glutão, perfeitamente ridículo, que trazia coxas de frango no bolsos da jaqueta…

Vista assim a História,a sua próprioa História, afinal, não admira que não prezem a memória, tenham deixado arder o Museu Nacional e alguns tenham até o desplante de vir para as redes sociais dizer que acham bem!.

Tentando “cortar com as raízes ibéricas”, como aconselhava Sérgio Buarque de Holanda, pai do Chico, desde pelo menos de 1922, ano da Semana sde Arte Moderna de São Paulo, e do Manifesto Antropófago, os brasileiros passaram a valorizar (retoricamente) a herança índia e a herança negra, desprezando a portuguesa – “Tupi ou not tupi – that is the question” – foi o lema.

Por outro lado, não querendo ser portugueses e rejeitando a sua herança, os brasileiros pintam-se de todas cores para não parecerem lusos – olhavamantes para para a França, em termos de cultura, e passaram depois a olhar para os EUA em termos de modelo económico e social.

O problema é que a herança portuguesa está lá e é inapagável – está na língua, na religião, nos hábitos e costumes… E por isso, sempre que se olham no espelho, a imagem que os olha, por detrás de todos os disfarces, é a do velho portuga, que não conseguem superar porque nunca a aceitaram e se recusam a encará-la.

Só quando um dia finalmente o fizerem, perdendo os complexos, aceitando o bom e o mau da herança lusa que é a sua e não podem apagar, serão verdadeiramente capazes dela se libertar.

Portugal também tem responsabilidades nesta situação e tinha obrigação de fazer mais, muito mais por revertê-la, valorizando o seu passado no Brasil.

Para isso, seria necessária muito maior comunicação do que aquela que existe – a Lusa arreou a bandeira, a RTP Internacional foi tirada pela Globo da maior rede de distribuição por cabo do país e a SIC, que está lá em vez dela, não tem programas específicos virados para o Brasil, pelo que não existe qualquer diálogo de Portugal, em termos de comunicação, com a populaçao brasileira.

Nesta situação, o que espanta, é que mesmo assim a herança portuguesa persista e sobreviva, embora de forma contraditória, como há muito já notou a argúcia de Eduardo Lourenço – Portugal, no Brasil, está em todo o lado e em lado nenhum…

 

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Escrito por: Portugal Digital

Comentários recentes

  • Caríssimo Carlos Fino,
    Mais uma excelente, arguta e bem colocada “Opinião” de quem que, com o correr do tempo, passou a conhecer em profundidade as nuances dos brasileiros.

  • Na história do Brasil ocorreu de facto uma cisão/separação/autodeterminação ou lá o que escolhamos dizer, operado por actores políticos e económicos de um Portugal ‘de além-mar’ contra a Coroa imperial de Portugal. Rigorosamente não me parece portanto adequado dizer que se tratou de de uma (simples) situação de “nação colonizadora contra nação colonizada”.

    Em tais situações é da praxe diabolizar o ‘pai’, a para isso havia abundante material acusatório. Não era certamente mentira dizer que ” os portugueses trouxeram o estado burocrático, estamental e corrupto, dizimaram os índios, destruíram a mata atlântica, instauraram a escravatura, levaram o ouro…”

    Mas se tais libelos eram então legítimos, resta no entanto perguntar ao Brasil de hoje (e não apenas ao ‘Estado’ brasileiro…) que remédio trouxe, após dois séculos de independência, àqueles males : entre outros, à corrupção e à burocracia, à destruição das florestas, à imensa questão da dignidade e dos direitos das populações autóctones (afinal os ‘donos’ da terra…)?

    Mas importa igualmente um reparo à parte do preâmbulo do artigo que diz “…na realidade, em 1822, data da independência do Brasil, não havia duas nações – havia só uma que se cindiu (na altura, índios e escravos negros, como se sabe, não contavam).”

    Curiosa linguagem essa. Certamente que “na altura” índios e negros não contavam. Mas quando o autor está a escrever HOJE que ‘só havia uma nação’ está obviamente a excluir do conceito de nação os atributos dos diferentes agrupamentos índios que habitavam o território. Lapso ou opinião? Lembremo-nos de que, durante muito tempo, aos diferentes agrupamentos índios que habitavam o território depois denominado América do Norte não era concedido o estatuto de NACÃO. Eram apenas ‘tribos’. Bastou talhar por medida o conceito de nação para esse pessoal ‘indígena’ não coubesse….Há porém um bom tempo que é consenso que se tratava de (cerca de) 200 NACÕES…
    Também se decretou em tempos idos um oportuno conceito a respeito dos negros, segundo o qual eles eram seres ‘desprovidos de alma’. Não ‘contavam’ entre os filhos de Deus, aqueles aos quais se aplicava o preceito de ‘irmãos em Cristo’. Não era portanto pecado escravizá-los…

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