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O governo Costa, o vice-almirante e a Azambuja

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Alfredo Prado


O governo de António Costa não tem sido poupado a críticas. Elas chovem com ventos vindos da direita, mais amenos da esquerda, algumas até resultantes de amontoados de nuvens a centro. Enfim, Costa pode lamentar-se de tudo, menos de menor atenção crítica ao seu governo. E, a propósito, vem a pandemia, como não poderia deixar de ser, o mau desempenho de ministros, os altos e baixos da vacinação, e as ordens do almirante que não são cumpridas na Azambuja. Ou não são para serem cumpridas? E, no meio disto tudo, sabem quem se lixa? Não é o mexilhão, não senhor! É o cidadão!


Nestes já longos anos de exercício do poder executivo, o primeiro-ministro tem dado sobejas provas de ter o que é comum chamar-se, no Brasil, “jogo de cintura”. Bamboleio para um lado, bamboleio para outro, e vai levando o barco… para onde ainda não se sabe bem. Rui Rio e os atuais barões do PSD, à direita, vão observando, entre expectantes e esperançosos. Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, à esquerda, parecem ainda acalentar a possibilidade de alguma coisa tipo “Geringonça 2”, depois das eleições autárquicas.

Pode-se dizer que Costa teve azar. Quando se candidatou não poderia sonhar que no horizonte se formava uma tempestade de grande dimensão. Nem ele, nem ninguém. Durante algum tempo pensei, não sendo seu eleitor, que a sua governação deveria merecer o benefício da dúvida. Qualquer possibilidade mais à direita está fora do meu radar. Explicando: Costa é de direita? Não, acho que não. É de esquerda? Não. Bem, talvez aos sábados, domingos e feriados. Então, será do centro? É possível que sim. É possível que acredite que o êxito nas artes da governação esteja na “ginga”, no inclinar para um lado e dar para o outro.

Vamos falar de coisas práticas. Na arte de contemporizar, o primeiro-ministro tiraria nota 10. Em diplomacia, a nota também seria positiva. Mas, e no que importa verdadeiramente aos portugueses e, já agora, aos imigrantes, que são quase dez por cento da população nacional (e ainda bem), qual seria a classificação do seu governo? Bem, neste quesito, pelo que vou ouvindo, aqui e ali, varia entre o sofrível e o medíocre. Sofrível para os menos atentos ao que se vai passando no dia-a-dia do país e do mundo; medíocre para os que, por dever de ofício ou por gosto, costumam escrutinar a informação com sentido crítico.

Costa convive diariamente com problemas acumulados, não resolvidos, com asneiras cometidas pelos ministros, com os ministros invisíveis, que são cada vez mais, com ministros suspeitos das mais diversas prevaricações. Costa segura politicamente a ministra da Saúde, cujo tom vocal já deixa os portugueses à beira de uma crise nervosa, o da Administração Interna, que coleciona escândalos, o dos Estrangeiros, cuja admiração pelo eixo de Washington é óbvio, o da Defesa, que, para agradar aos falcões da Nato, conseguiu concitar a animosidade dos chefes militares portugueses… A da Justiça, boa gente mas não talhada para estas andanças. Esclarecendo: nunca o foi, nem quando não lhe passava pela cabeça ter qualquer protagonismo político, sequer atividade, muito menos em Portugal. Enfim, a lista seria extensa.

E como Costa tem sobrevivido? Com o tal “jogo de cintura” e marketing, muito marketing. Se olharmos com atenção para a atividade governamental, rapidamente chegaremos à conclusão de que grande parte dos anúncios de projetos, de medidas, disto ou daquilo, mais não são que peças de marketing político.

O caso da saúde é evidente. Não precisamos ir muito longe, à pré-pandemia por exemplo, quando o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) já era mais que periclitante. Com sorte, os cidadãos conseguiam ter um acompanhamento mais ou menos regular por médicos generalistas (não especialistas) nos centros de saúde e ter um bom acompanhamento se, por algum acidente ou mal estar grave, iam parar a alguma sala de cirurgia de um hospital. Não sendo assim, consultas de especialidade só depois de meses e meses de espera, o mesmo acontecendo com as cirurgias programadas, que chegavam a ter um e dois anos de atraso. Escrevo isto, só para avivar a nossa memória coletiva.

Com a pandemia tudo se agravou.

E o que fez o governo? Investiu significativamente no SNS? Reforçou em meios humanos a vacinação contra a Covid-19? Pouco, muito pouco.

O vice-almirante e a Azambuja

Se viverem em Lisboa e quiserem comprovar o que o governo não faz ou faz mal, basta deslocarem-se uns cinquenta quilómetros para chegarem à Azambuja, território eleitoral do partido do primeiro-ministro.

Neste concelho, em que indústria, agricultura e tertúlias taurinas convivem, o Centro de Saúde, ligado à Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, tem ótima aparência. O edifício é novo e aparentemente funcional. Se o visitar hoje verificará, no entanto, que grande parte está às moscas… isso mesmo!

O pior é que, em plena pandemia e quando a variante Delta avança pelo país fora sem pedir licença de passagem, o Centro de Saúde funciona como pode e não como orienta a chamada “task force” ou, seja, em português, que é a língua em que todos nos entendemos, a comissão nacional de vacinação contra a covid-19, comandada por um vice-almirante, por uma diretora-geral da Saúde, por uma ministra da Saúde e por um primeiro-ministro. Acredito que seja esta a escadinha hierárquica.

E o que tem o vice-almirante Gouveia e Melo a ver com tudo isto? Que eu saiba nunca subiu o Tejo de submarino até à Azambuja. Vou explicar.

Quarta-feira, dia 30. Despacho da agência de notícias Lusa informa em título: “Covid-19: Quem tomou 1.ª dose da AstraZeneca até 25 de abril pode tomar 2.ª até domingo”. Na abertura da notícia, lê-se: “As pessoas que foram vacinadas com a primeira dose da AstraZeneca até 25 de abril devem dirigir-se até domingo ao mesmo centro de vacinação para receber a segunda dose, informou fonte da ‘task-force’ do plano de vacinação.”

A medida de antecipação da segunda dose é dirigida a todo o país. Ou seja, não é específica para Lisboa e Porto.

Depois, somos informados dos horários de funcionamento dedicados à vacinação com a segunda dose da AstraZeneca, nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.

Para a Área Metropolitana de Lisboa (AML) o funcionamento dos centros de vacinação para a toma da segunda dose da AstraZeneca é, globalmente, das 17:00 às 21:00 (alguns podem encerrar às 20:00) e, na Área Metropolitana do Porto (AMP), das 17:00 às 20:00.”

Contudo, explica a ‘task force’, há alguns centros na AMP que poderão igualmente funcionar até às 21:00, pelo que se aconselha a consulta de horários na página da Administração Regional de Saúde do Norte. Para os restantes centros de vacinação no país, os utentes devem consultar o respetivo horário localmente”, lê-se na notícia da Lusa.

“Na próxima semana (de 05 a 11 de julho) serão os utentes que foram vacinados com a primeira dose entre 26 de abril e 16 de maio que se devem dirigir ao centro de vacinação, enquanto quem recebeu a primeira dose entre 17 e 23 de maio deve tomar a segunda após 12 de julho.”

As indicações são bem claras. Ou parecem claras. Um residente da Azambuja, quando recentemente conheceu a informação da DGS de que a inoculação da segunda dose da Astra Zeneca tinha sido antecipada das 12 semanas para oito semanas, ficou a saber, por fonte qualificada do Centro de Saúde, que “nem tudo o que a comunicação diz é real”. E que “estavam a fazer o que podiam; trabalhavam 14 horas por dia, mas não tinham nem pessoal, nem vacinas, nem instalações disponíveis para aumentar a vacinação”.

Hoje, quando ficou conhecida a nova disposição da “task force”, que convida os cidadãos a tomarem, até domingo, a segunda dose, o mesmo cidadão, de 68 anos, com várias comorbidades, entrou em contacto com o Centro de Saúde.

Ficou a saber então, por outra pessoa “qualificada”, que pediu para não ser identificada, a mesma coisa: “ Não temos pessoal e não podemos pedir mais vacinas do que aquelas que podemos aplicar”. Afirmou ainda, entre várias outras coisas, que tinham pedido reforço de pessoal, mas que a “empresa” (“fornecedora” do SNS) não tinha; que não podiam vacinar nas freguesias do concelho (algumas a cerca de vinte quilómetros da Azambuja), pois isso obrigaria a desdobrar as equipas; que só enfermeiros diplomados podiam vacinar (recusando, por exemplo, a possibilidade de recurso a enfermeiros/médicos aposentados ou com disponibilidade), e que “os militares só sabem mandar e deveriam é vir para cá”.

Depois de toda a argumentação, o cidadão ficou a saber que, com sorte, receberá a segunda dose dois ou três dias antes do dia 9 de julho, às 14h11, data e hora para a qual foi agendada, quando tomou a primeira dose, no dia 16 de abril. Ou seja, a antecipação anunciada pelo governo não é para todos. Porquê?  Aparentemente, porque o governo não reforçou a vacinação contra a covid-19 com assalariados, aposentados ou voluntários e porque o funcionamento burocrático – velha mazela nacional – se sobrepõe à urgência das soluções para as situações.

Ficou o utente do SNS também a saber que o anúncio de antecipação das oito para as quatro semanas e que a campanha de antecipação, de justificável emergência – dadas as características da vacina da AstraZenaca – mais não são, em boa parte do país, que exercícios de boa-vontade. Isto se o cidadão conseguir ainda ter um olhar benevolente.


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