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O logro de Pias


Nisto tudo, a vitima é sempre a mesma: o consumidor incauto. Pode ser que, um dia, alguém se queixe a sério e as autoridades (ou as associações de defesa do consumidor, que também se calam perante este fenómeno) decidam agir.


Chamemos os bois pelos nomes: há, nisto tudo, logro. E com dolo. Há os perpetradores. E há vítimas. Estas até podem não ser prejudicadas monetariamente ou fisicamente. Mas estão a ser enganadas, porque estão a comprar uma coisa e é outra. Pode haver, que há, um bom argumento técnico e jurídico para se continuar a fazer. Pode haver, que há, a satisfação do lucro rápido e fácil. Mas está errado. E só se pode estranhar o silêncio.

Repare-se na imagem. A fotografia foi tirada num supermercado, na zona dos vinhos, na secção dos populares “bag-in-the-box”. Mas também os há em garrafa e nas prateleiras dos preços mais baixos. Chamam-lhes tudo, isto, aquilo e um par de botas… “de Pias”. E é mentira.

Há uma freguesia do concelho de Serpa, no Alentejo, chamada Pias, com 163,68 km² de área e 2852 habitantes (segundo o censo de 2011). Era, e pode ser que ainda seja, uma zona de onde saía um vinho ligeiramente diferente do vinho padrão do Alentejo, com uma certa frescura que, em certa medida, o aproximava mais do carrascão do Noroeste de Lisboa. Fui algumas vezes comprar lá vinho e também o bebi lá. Nunca mais o farei, nem sequer o
comprarei fora de Pias.

A freguesia, ou o concelho (ou o empresariado local), não fez por proteger, como marca, região ou outra coisa qualquer, o vinho local. À conta da fama (e da garantia de um por tradição mais baixo), generalizou-se, lentamente, o
vinho “de Pias”. E em especial no formato “bag-in-the-box”, por ser o que sai mais e para públicos “populares” (e, às vezes, menos “populares”…). Actualmente, basta olhar para imagens como esta e perceber que se instalou uma loucura gananciosa que não poupa ninguém.

Na disseminação da coisa convergem empresas de comercialização de vinho, que o compram onde calha e já pronto a ser engarrafado, empresas vitivinícolas locais que até reconhecem que o seu “de Pias” não tem proveniência geográfica determinada (é o que se chama ter má consciência…), empresas que anseiam ter uma boa posição no mercado com vinhos de todas as regiões, produtores e empresários respeitáveis. Estão, a um nível que transcende muitas empresas e quintas de honestidade transparente, numa postura de claro logro. Podem fazê-lo. Podem chamar ao produto que vendem tudo o que querem, à excepção de regiões determinadas ou de marcas com dono, mas o certo é que estão a pôr no mercado vinho que está iniludivelmente associado a uma determinada região. E os consumidores compram, mesmo que seja evidente a origem (basta ver pelo código postal) e mesmo quando não é, porque acredito, sem o poder garantir, que já sai da freguesia de Pias vinho com “Pias” no rótulo e que provém de outras regiões.

Nisto tudo há ainda um elemento estranho: o silêncio e a complacência da imprensa, seja da imprensa generalista seja das revistas de vinhos e dos “críticos de vinho”. Haverá, pelo menos, duas explicações: por um lado, o “bag-in-the-box” está, para este sector que se considera uma elite, num patamar que não admitem que seja o seu quando têm de comprar vinho com o seu próprio dinheiro; por outro lado, os vinhos que são objecto das suas “críticas” e reportagens são oferecidos pelas empresas, inclusivamente por aquelas que lá vão pondo no mercado o tal “de Pias”.

Num sector, como o da imprensa, tão cheio de presunção quanto ao que está “certo” ou “errado”, é um branqueamento que cheira a “rolha”.

Nisto tudo, a vitima é sempre a mesma: o consumidor incauto. Pode ser que, um dia, alguém se queixe a sério e as autoridades (ou as associações de defesa do consumidor, que também se calam perante este fenómeno) decidam agir.

Digestivo

O “Público” não é, digamos, vinho que se beba. Nem pelos critérios, nem pelas opiniões, nem pelo rigor, nem pela objectividade. No passado dia 24 de Novembro publicou um suplemento “especial” sobre vinhos. Com 64 páginas, das quais 24 são de publicidade. O Douro e o Alentejo (com artigalhada elogiosa) são as referências principais nos textos, nas recomendações e na publicidade, numa coincidência interessante. O Dão resume-se a três vinhos recomendados, um dos quais é produzido por uma das empresas que fazem publicidade de página nesta edição. A coincidência é igualmente interessante.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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