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O petisco universal

 

 

Salir do Porto, uma povoação do litoral atlântico do concelho de Caldas da Rainha, onde resido, conta entre os seus vários pontos de interesse com dois restaurantes “irmãos”, um dedicado às carnes (Naco na Pedra) e outro ao peixe (De Mar em Mar). Têm ambos ótimas cozinhas, um elevado nível de serviço e cartas de vinhos muito bem feitas e abrangente.

Recentemente estive no De Mar em Mar e comi cataplana de bacalhau, com o dito peixe cozinhado, na base de um ligeiro refogado. Perfeita, saída das mãos sábias do chef António Flores, a cataplana foi acompanhada com vinho tinto, no caso um vinho de 2009 (corrente) da Adega Cooperativa de Castelo Rodrigo. A união foi perfeita. Para dois dos meus três companheiros de mesa veio uma cataplana de outros peixes, que também ligou muito bem com um branco (de 2016) de Castelo Rodrigo.

Sendo o bacalhau um peixe, poderá considerar-se que, e então num preparo destes, deveria ser acompanhado com vinho branco. Atendendo à qualidade do vinho branco, diria que até poderia ser. Este Castelo Rodrigo branco ligava bem com a cataplana de bacalhau. Mas o bacalhau tem essa enorme vantagem: liga bem com os brancos e com os tintos. Desde sempre.

O bacalhau, na sua versão salgada e seca, tem um estatuto especial na gastronomia portuguesa. Podia ser transportado e armazenado nas povoações do interior quando a electricidade ainda era uma miragem. Por esse mesmo motivo estava sempre à mão.

Já foi considerado tanto um alimento de luxo como um alimento miserável (“Para quem é, bacalhau basta”), pode ser cozinhado com um leque vastíssimo de receitas e faz parte do imaginário colectivo a ideia de que terá havido um livro de receitas especificamente intitulado “1001 Maneiras de Cozinhar Bacalhau”.

Assado no forno com uma boa dose de azeite e alho, grelhado nas brasas, desfiado e gratinado, frito, misturado com batatas fritas e ovos, em arroz, em caldeirada, em pastéis de massa de batata ou de massa mais leve, cozido… o bacalhau presta-se a tudo e pode ser aproveitado quase integralmente, das partes laterais da cabeça (as caras) às postas mais compostas (os lombos). Não precisa de um preparado sofisticado mas ganha com eles e sobressai mesmo na mais simples das condições, como a famosa punheta de bacalhau, que tem por matéria-prima o bacalhau desfiado à mão e cru, ou quase.

A sua carne firme e o sabor muito específico, robustecidos ambos por uma salga correcta harmonizam-se na perfeição com vinhos tintos, brancos e verdes, fazendo deste peixe o petisco perfeito, tanto para o vinho como para uma refeição mais formal ou mais festiva, onde é vantajoso ter, pelo menos, um prato que agrade a todos.

O bacalhau é, deste modo, o petisco universal. E o leitor, gosta?

Digestivo:

Já aqui contei que havia uma revista dedicada ao vinho, a “Revista de Vinhos”, onde a equipa original foi substituída pela equipa que vinha de outra revista concorrente, a “Wine”. Com isto, a “Wine” parece ter desaparecido e a revista “ocupada” passou a “Revista de Vinhos – A Essência do Vinho”. Entretanto, os “desalojados” da primeira fizeram uma nova revista, quase igual, chamada “Vinho – Grandes Escolhas”. As duas revistas têm agora perfis muito idênticos, o mesmo preço e algumas particularidades em que não se distinguem. Parecem, com isso, vinhos alentejanos…

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: Portugal Digital

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