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Os problemas do amigo Costa

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Costa está com vários problemas nas mãos e ressuscitar ou não a “geringonça”, a aliança à esquerda, é um deles. Talvez o maior. O primeiro-ministro português, convicto socialista, à moda dos bons social-democratas europeus, de alegre convívio com as multinacionais, atravessa fase difícil da sua vida política. Ou consegue entender-se com a esquerda, à qual diz pertencer, quando calha, para aprovar o Orçamento do Estado para 2022, ou corre o risco de se embrulhar numa crise política de desfecho indefinido. E não adianta responsabilizar bloquistas, nem comunistas. Afinal, uns e outros já muito fizeram para viabilizar os governos do amigo Costa.


Alfredo Prado


A provável saída da cena política, pelo menos a deste cantinho à beira-mar plantado, lá para 2023, quando terminar a atual legislatura, pode não ser tão airosa como desejaria.

António Costa tem nas mãos uma arma política de grande poder, ou seja, a “bazuca”, como definiu, usando terminologia de guerra, os mais de 14 mil milhões de euros entregues pelos cofres de Bruxelas para o Plano de Recuperação e Resiliência, o PRR, para o país superar a destruição causada pela pandemia e ganhar novo fôlego.

Durante a campanha eleitoral para as autárquicas, o primeiro-ministro e secretário-geral do Partido Socialista não teve pejo em utilizá-la, até à exaustão, para tentar conquistar votos. A arma destruidora funcionou, mas não com a eficiência desejada. O PS, ainda que com maioria, perdeu uma mão cheia de votos e de câmaras numa eleição marcada, como tem vindo a ser habitual em Portugal, por abstenções que chegam a quase metade dos eleitores. Cidadãos que, ano após ano, vão virando as costas a políticos manchados por escândalos e a programas políticos anquilosados.

Um alerta que os primeiros interessados, partidos e políticos, minimizam sistematicamente.

Costa enfrenta agora a batalha do Orçamento do Estado para 2022. A proposta que levou à Assembleia da República está longe de agradar aos partidos de esquerda que, ao longo dos últimos seis anos, lhe têm servido de muleta para se sustentar no poder. Uma esquerda que parece estar cansada de não se fazer ouvir.

PCP e Bloco de Esquerda (BE) já disseram que a proposta tal como está não poderá contar com os votos parlamentares de bloquistas e comunistas. E têm razão. Esmiuçando a proposta estamos perante um amontoado de generalidades que pouca ou nenhuma garantia dão de concretização.

O país é pobre. Isso já todos sabemos. Mas os pobres deste país, os pobres mais pobres e as camadas da classe média que vão perdendo mês após mês poder aquisitivo e qualidade de vida, esperam, legitimamente, que os governantes socialistas, que afirmam e reafirmam querer melhorar as condições de vida da maioria dos portugueses, tenham opções claras. Mas, julgo eu, não só não as têm como dificilmente terão, no imediato, enquanto persistirem numa visão conservadora da social-democracia, piscando ora à direita, com fanfarras, ora à esquerda, quase que envergonhados.

Nos últimos dias, Costa e os seus adjuntos têm-se multiplicado em declarações quase apocalípticas, dirigidas a bloquistas e comunistas, para que aprovem o Orçamento. “Se não houver entendimento, todos saímos a perder”, apelou, quarta-feira (13), o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro. “Com toda a convicção, posso dizer que, se nós não nos entendermos, vamos prejudicar todos e as pessoas não vão compreender”, afirmou.

O problema é que não é só António Costa que está cansado da tarefa a que se propôs. A esquerda está saturada de servir de bengala a um PS hesitante, que um dia faz promessas aos trabalhadores e no dia seguinte adota medidas que servem os grandes empresários. A difícil arte dos equilíbrios até pode ser louvável, na medida em que sirva os interesses nacionais e da grande maioria da população que, como sabemos, está longe de estar no topo da pirâmide dos que mais rendimentos auferem.

Ao longo das próximas semanas, o país vai assistir ao sobe e desce das negociações em torno do Orçamento. Os partidos de direita, do PSD e da Iniciativa Liberal, ao recém fabricado Chega, cópia de outros produtos da extrema-direita neofascista europeia, já se manifestaram no sentido de que não darão aval ao Orçamento. Resta ao PS, para o aprovar, avançar na procura de entendimentos e consensos com PCP, BE, PAN e Verdes. E terá que, em nome do Estado social que tanto apregoa, ouvir mais a esquerda, aproximar-se dos que vivem de salários, de parcas pensões e dos pequenos empresários que dificilmente sobrevivem.

Bloquistas e comunistas colocam a fasquia muito alta? Não me parece. Será exigir muito que o governo reverta de imediato o processo de sucateamento do Serviço Nacional de Saúde? Será querer o céu exigir que António Costa invista no ensino público? E que verta no Orçamento em números significativos a construção de habitação social? E que melhore substancialmente as condições de vida dos pensionistas? E, já agora, que chame economistas de esquerda (pois, marxistas), que também os há, e bons, para ajudarem a desenhar modelos de desenvolvimento que permitam ao país crescer, com sustentabilidade, é claro! Bem, isto talvez já seja pedir muito. Contentar-me-ia se apelasse à colaboração de especialistas progressistas.


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