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Palavreado

As palavras, reconheço-o, podem ter quase uma espécie de magia. Dizer tudo, atrair as atenções. Convencer. Ser uma espécie de semente de qualquer coisa de novo em qualquer domínio. Mas também podem ser o contrário de tudo isto, quando se desce da palavra à prática. Em termos práticos, é isto: “Enotainment” é uma palavra forte; depois, quanto mais procuramos, mais o tecido da coisa se revela débil.


Na sua origem, a palavra “Enotainment” remete para dois domínios que pretende cruzar: o do vinho (“eno”) e o espectáculo (“entertainment”). E aparece associada, ou inventada por duas marcas, ou empresas, ou conceitos, ou seja lá o que for, não muito diferentes: de um lado está a Lyfetaste (“gosto da vida”, com “y” em vez do “i” de “life”) e do outro a Wine with Spirit (“vinho com espírito”).

O conceito “enotainment” engloba, por sua vez, venda de vinho on line, venda de vinho com acessórios em jeito de conjunto (vinhos, acessórios e outros elementos) num leque com nomes sugestivos como “Cheers to Me!”, “Gift Amores & Humores”, “Chef”, “Food & Friends”, “Meat Lovers”, “Hate & Love” ou “Wine & Cheese” e… “Fernando Pereira Showcase & Party”. Ou seja, neste último caso, “Já não precisa de esperar por um concerto do artista Fernando Pereira. Agora, pode tê-lo em sua casa ou no seu estabelecimento. O espectáculo vai ter consigo!”. Se os vários cabazes vão dos 15.48€ aos 85.84€, já “o artista Fernando Pereira” custa mais: 5535€, “com imposto” (IVA). Sem vinho, aparentemente.

Paralelamente, há uma outra oferta de “entertainment”: “Os 3 Bastardôs!”, grupo que junta “1 cantor, 1 ator, 1 rock star”, ou seja, Rui Melo, João Campo e Mico da Câmara Pereira. Os concertos, que os interessados podem contratar, custam um mínimo de 4182€ (com IVA e talvez sem vinho).

Os vinhos que a Lyfestile vende têm a marca “Bastardô”. As informações sobre eles são quase nulas. Nem se compreende porque é que um vinho serve para uma coisa e não serve para outra, o que, aliás, até é defensável: levados ao pormenor, um vinho do Douro e um vinho da Península de Setúbal não servirão para a mesma ocasião, e o mesmo se passa entre um vinho do Dão e um alentejano.

Aqui, há a diferenciação entre vinho maduro, rosé e verde mas sem indicação de origem, castas ou produtor. E, no entanto, ele até existe, com um vinho branco e um vinho tinto com o seu próprio nome nos produtos da Lyfestile: Encosta do Sobral, situada em Tomar. Aliás, parece haver só vinhos da Encosta do Sobral à venda na Lyfestile. Podem ser bons mas, a serem exclusivos por bons motivos, deviam ser realçados de outra forma

No site (lyfestile.pt) , a empresa apresenta-se em poucas palavras: “Lançada no início de 2016, a Lyfetaste surgiu como uma alternativa disruptiva aos canais de distribuição tradicionais, vindo não só descomplicar o momento de selecção e compra do vinho, mas também oferecer uma excelente oportunidade de negócio a todos os empresários que pretendam trabalhar ao seu próprio ritmo, onde e como melhor lhes convenha.” E apresenta-se também como “franchise”, aberta a quem queira tornar-se seu “afiliado”.

As referências que se encontram a este projecto não são recentes, datando quase só do seu lançamento, o que sugere que a sua concretização terá ficado aquém dos desejos iniciais. Alguma indefinição e a escassez da oferta poderão explicar este relativo apagamento.

Digamos que talvez tenha faltado a magia à palavra (ou conhecimento do mercado do vinho?), apesar das boas intenções e da bondade do conceito.

Digestivo

Falta o vinho, neste caso, mas não o queijo. Modesto no preço mas rico de sabor, o queijo Soalheira curado, de queijo de cabra), é um belo petisco. Descobri-o por acaso, numa feira de “tasquinhas” onde pouco se promovia a região onde ela decorreu. Vem da Quinta do Pomar, da localidade de Soalheira, entre Castelo Branco e a Covilhã, e convida à companhia de um vinho tinto robusto e de broa para lhe sustentar o gosto. Bem bom!

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: Portugal Digital

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