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Passos e a desinspiração

Passos Coelho dificilmente chegará a 2019 como o líder de que o PSD precisa para derrubar o Governo do PS. Se esta legislatura não é para António Costa um agradável passeio no parque, pelo menos não anda longe disso. 


A vida de Pedro Passos Coelho não anda fácil. Depois de o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ter afirmado que a direita em Portugal anda distraída e a desaproveitar as suas dicas para fazer o seu trabalho de oposição ao Governo de António Costa, este domingo foi Luís Marques Mendes, outro notável dos sociais-democratas, a apontar o dedo, com alguma razão, ao líder do PSD.

Disse Marques Mendes, no seu habitual comentário televisivo de domingo, que o facto de Passos Coelho andar entretido e preocupado com a relação difícil que tem com Marcelo Rebelo de Sousa não era revelador de grande inteligência política, posto que dessa forma Passos gasta a sua energia desviando-se do essencial, que seria fazer oposição ao Governo de esquerda liderado por Costa. Passos Coelho apressou-se, esta segunda-feira, a negar que haja tensões entre si e Marcelo. Mas não é preciso afirmá-lo ou negá-lo: é hoje evidente, para todos, que Passos e Marcelo não estão em sintonia.

Ora, se Passos tem, aqui e ali, uns fogachos de espaço mediático, como quando, este fim-de-semana, disparou contra os juízes para reprovar a ameaça de greve dos magistrados, a verdade é que a conjuntura não augura nada de bom para o seu futuro político. O declínio de popularidade herdado com quatro anos de governação em austeridade é um dado adquirido. Invertê-lo exigirá de Passos, por um lado, um plano de ação bem pensado e, por outro, uma implementação sem falhas. Nem uma coisa nem outra se afiguram hoje no horizonte do PSD.

Com quase dois anos decorridos de governação em minoria, sustentada por um inédito apoio parlamentar de partidos tradicionalmente anti-Governo, como o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português, o Partido Socialista (PS) está a dar provas da sua habilidade para pegar num país ferido pela intervenção da troika, recuperando o seu orgulho e, mais importante, a capacidade de reinvenção e crescimento económico.

É claro que António Costa não o fez sozinho. O desemprego recuou para menos de 10% e isso não foi obra exclusiva do Governo, beneficiando, principalmente, de uma conjuntura económica mais favorável, com a Europa a crescer e as empresas portuguesas a reerguerem-se, produzindo mais e melhor. O turismo alcançou níveis notáveis. E Portugal é hoje visto por muitos estrangeiros como um país estável, acolhedor, seguro. A cantora Madonna escolheu Lisboa para viver. Dificilmente poderia um Governo sonhar com melhor embaixatriz para a sua promoção turística internacional.

Mas se os ventos correm de feição, é também necessário reconhecer que António Costa tem sido competente na gestão do seu Executivo, evitando que pequenos erros dos seus ministros e secretários de Estado se tornem falhas sísmicas que ameacem a solidez do Governo, e obtendo com Bloco e PCP uma negociação sensata e equilibrada dos interesses nem sempre coincidentes. Um equilíbrio que, tudo indica, será prosseguido na preparação do Orçamento do Estado para 2018. Não tão ambicioso como desejariam Bloco e PCP, mas seguramente suficiente para garantir pelo menos mais um ano de coabitação pacífica de toda a esquerda em Portugal.

Muitos auguravam que a legislatura não chegaria ao final e que António Costa acabaria por cair antes de 2019, por força das inconsistências ideológicas e programáticas das visões do PS, PCP e Bloco. Sucede, todavia, que a “geringonça”, como jocosamente esta aliança foi nomeada pela oposição, vai fazendo a sua caminhada sem desvios de maior face ao objetivo traçado.

As eleições autárquicas de 1 de outubro serão um barómetro à popularidade dos partidos da oposição, principalmente o PSD, a nível local. Passos poderá aí recuperar algum do capital político perdido nos últimos anos. Mas dificilmente chegará a 2019 como o líder de que o PSD precisa para derrubar o Governo do PS. Se esta legislatura não é para António Costa um agradável passeio no parque, pelo menos não anda longe disso.

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