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Peregrinação: Cabriz (Quinta de)

Há quem acredite que a Mãe Natureza faz milagres. E que a mão humana também. Eu não acredito muito mas respeito quem assim pensa. É por isso que não bebo o vinho de marca Cabriz.


O vinho Cabriz já foi “Quinta de Cabriz”. Depois deixou de ser, aparentemente porque as uvas de onde é feito, podendo ser do Dão (e compradas, portanto, a agricultores muito diversos mas desta região), já não são todas do mesmo local (a Quinta de Cabriz, em Carregal do Sal). E decerto que têm de ser compradas em grande quantidade porque, salvo se for milagre, só isso explica o facto de o vinho Cabriz aparecer em todo o lado, em restaurantes, supermercados, garrafeiras e o mais que houver, incluindo a exportação.

Mas se passo ao largo de Cabriz, o vinho, já não é isso que faço quanto ao restaurante que a mesma empresa mantém em Carregal do Sal, com a designação de Quinta de Cabriz, e que faz parte do meu roteiro do Dão.

O restaurante Quinta de Cabriz é merecedor de todos os elogios. A cozinha é muito boa, o serviço é adequadamente profissional (com amáveis ofertas, como azeite para molhar o pão e umas mini-empadas), a sala de refeições é elegante e os vinhos têm um preço invulgarmente atraente, ao nível do normalíssimo preço de venda ao público. Na lista de vinhos do restaurante estão quase todos os vinhos Cabriz (incluindo um inusitado Touriga Nacional branco…) mas não foi para aí que se voltaram as atenções dos apreciadores de vinho do pequeno grupo familiar.

A escolha recaiu sobre uma marca da Global Wines de vinho da Bairrada, o Quinta do Encontro branco e o Quinta do Encontro tinto (2012) na sua variedade de Baga e Merlot. Foram ambos surpresas agradáveis e, com a loja da Quinta de Cabriz fechada devido ao horário, foi possível comprar algumas das poucas garrafas desse Quinta do Encontro tinto que ainda existiam. Na loja, aliás, já só havia de 2014 e este, de 2012, não oferecia dúvidas nenhumas.

Se a Quinta de Cabriz é ponto de paragem obrigatória destas peregrinações, o restaurante Petz Bar, a poucos quilómetros (em Laceiras, Cabanas de Viriato), não era. Mas passa a ser. É um admirável restaurante sem pretensões, com uma cozinha muito boa, um proprietário (que também serve à mesa) muito amável e um vinho tinto de Tondela servido a jarro que de imediato nos encantou, muito mais do que um Quinta das Marias (em abundância na lista de vinhos) branco, depois de uma prova dececionante de um branco de Silgueiros.

A descoberta, como foi este caso, é um dos elementos fundamentais de qualquer peregrinação gastronómica e enófila que se preze. E é isso que tem sido possível fazer, com frequência, e que pode incluir (quando menos se espera) um produtor até então fora do radar, como me aconteceu e do qual falarei a seguir: a Quinta do Escudial, em Seia.

DIGESTIVO

Em vésperas de viagem ao Dão, abri dois vinhos da empresa Campolargo, da Anadia. Um deles era um Dão de 2015 e o outro, também de 2015, um tinto dado como sendo da Bairrada com a marca Termeão. O Termeão é interessante mas a ausência da casta Baga (característica da Bairrada) dá-lhe um carácter anódino. Talvez haja, nesta empresa, uma vontade excessiva de inovar que depois, mesmo em estado “puro”, não ganha, como aconteceu com um monocasta Baga desta mesma empresa, que perdeu no confronto com um Marquês de Marialva também só Baga (da Adega Cooperativa de Cantanhede). Já quanto ao Dão da Campolargo, não sabia a vinho do Dão e revelou-se  decepcionante. Aliás, nem sequer foi bebido e teve um fim pouco digno.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: Portugal Digital

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