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Pós-colonialismo e antirracismo em foco no Museu do Aljube, em Lisboa, em 2022

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Rita Rato completou um ano na direção do Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, em Lisboa, e faz um balanço do trabalho feito. 


Portugal Digital com Lusa


A diretora do Museu do Aljube, Rita Rato. Foto: Lusa / José Sena Goulão


O colonialismo, o pós-colonialismo e o antirracismo, temas “muito pouco discutidos nos manuais escolares”, vão estar em foco no Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, em Lisboa, no primeiro semestre de 2022, disse a diretora, Rita Rato.

Numa entrevista à agência Lusa sobre o balanço de um ano na direção do museu e uma antevisão do próximo ano de mandato, a responsável indicou que a exposição “Colonialismo, pós-colonialismo e antirracismo”, prevista para este ano, teve de ser reagendada devido ao impacto da pandemia.

Até lá, além da exposição de longa duração, que ocupa três pisos do museu situado junto à Sé de Lisboa – com a história do período da ditadura, da resistência e da revolução do 25 de Abril – o público poderá visitar ainda, até dezembro, a exposição temporária “Mulheres e Resistência – Novas Cartas Portuguesas e outras lutas”, que inclui um ciclo de cinema, conversas, e recolha de testemunhos.

Questionada sobre as opções programáticas para 2022, Rita Rato disse pretender continuar a aprofundar esta temática da autodeterminação de género, apresentar a exposição “LGBTQI+ resistências e direitos” e realizar também iniciativas relacionadas com o início das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.

“A exposição sobre colonialismo e pós-colonialismo estava para acontecer este ano porque se assinalam os 85 anos da abertura do campo de concentração do Tarrafal [em Cabo Verde], os 60 anos do início da Guerra Colonial e a revisão do Ato Colonial, mas teve de ser adiada devido à pandemia”, justificou.

Rita Rato sublinhou a importância de abordar estas temáticas, em parte por estarem “bastante ausentes” dos programas escolares.

“Estes temas são muito pouco discutidos nos manuais escolares, que falam muito pouco ou quase nada das questões do colonialismo, do que significou a dimensão colonial do regime fascista ou da prisão do Tarrafal e das prisões fascistas. Por isso, quero dar-lhes visibilidade”, sustentou, na entrevista à Lusa, no museu.

Na mesma linha, está prevista a publicação de um livro, ainda este ano, com as histórias de 170 mulheres e homens assassinados pelo Estado Novo, nomeadamente no forte de Caxias, na fortaleza de Peniche e no Aljube, transformado em museu em 2015, para recolher, proteger e divulgar a memória do combate à ditadura e a resistência em prol da liberdade e da democracia.

A ex-deputada do PCP entrou na direção do museu já em plena pandemia, numa fase de reabertura, em agosto de 2020, nomeada pela Empresa de Gestão de Equipamentos e de Animação Cultural (EGEAC), da Câmara Municipal de Lisboa, para substituir o historiador e investigador Luís Farinha, que cessou funções por aposentação.

“Essa foi sempre a minha realidade desde o início e foi sempre o contexto em que tive de trabalhar”, referindo-se à pandemia que afetou a atividade de todos os museus e o setor da cultura em geral.

Sobre a forma como as restrições afetaram a afluência ao museu, a diretora disse que se registou uma redução de público de 20%: “É significativo, mas sentimos ainda uma grande diferença no perfil de visitantes. Anteriormente eram sobretudo turistas e escolas, agora é maioritariamente público português e, ao longo do mês de agosto, já regressou o público estrangeiro”.

O número de visitantes, no primeiro semestre deste ano, foi, como em todos os museus, afetado pela pandemia, mas tem estado em tendência crescente desde janeiro, quando registou 166 visitantes, até junho, com 1.671 pessoas, num total de 5.386 nos primeiros seis meses.

Em 2020, primeiro ano com a pandemia ativa, o número total de visitantes foi de 10.462, menos de um terço dos que entraram em 2019 – com 34.924 visitantes – o que revela o impacto das restrições sanitárias.

Nestas circunstâncias pandémicas, a equipa foi construindo “formas criativas” de lidar com a adversidade e passou a olhar para a comunicação digital de outra forma.

“Percebemos que era preciso reforçar os conteúdos, além do habitual. A pandemia abriu uma nova era relativamente a essa importância da complementaridade dos meios digitais com o modelo presencial. Tivemos de gerir a incerteza e levar conteúdos às escolas, já que as escolas não podiam vir ao museu”, relatou.

Uma área também afetada pela pandemia foi a da formação que o museu dá a professores.

Estava previsto um ciclo presencial de oito sessões sobre a importância da cidadania que foi alterado para acontecer virtualmente e acabou por reunir 1.200 docentes de Lisboa, Porto, Aveiro, Madeira e Timor-Leste.

“Teve a vantagem de chegar a mais gente, mas tem desvantagens, porque a partilha presencial perde-se”, comentou a diretora à Lusa.

No Aljube, Rita Rato encontrou um perfil diversificado de públicos a cujas necessidades quer dar atendimento: “Há o público orgânico, composto por pessoas e organizações que estão ligadas à própria formação do museu, dominam a área e as temáticas da resistência à ditadura, e que inclui os investigadores e académicos ligados à área, e depois há um público adotivo que é o das escolas, frequentemente com um contacto com os espaços culturais apenas desta forma”, visitantes a quem a direção quer dar uma atenção especial.

“É um trabalho que nos interessa muito porque vêm cá crianças que nunca tinham estado num museu. Quem vem com as escolas passa a conhecer e depois regressa com a família e amigos”, apontou, acrescentando a este o público “mais improvável, porque está afastado da temática da resistência”.


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