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Revisão da matéria dada


É a predominância do sabor a baunilha que me tem afastado dos vinhos alentejanos, marcados por um sabor adocicado que destrói toda a sua racionalidade e, para mim, a memória de muitos vinhos alentejanos de enorme qualidade que já bebi.


No passado dia 13 (na crónica “A Princesa do Oeste”) cometi um desagradável duplo lapso: referi-me, em termos elogiosos, a um vinho e recomendei-o. Era o vinho tinto José de Sousa Reserva, de 2014, da empresa José Maria da Fonseca, feito de uvas da casta Grand Noir (58%), com Trincadeira (27%) e Aragonez (15%). De três garrafas que tinha comprado, abri nessa altura a primeira e, há poucos dias, abri a segunda.

A impressão da primeira garrafa foi muito boa e quase me senti reconciliado com os vinhos alentejanos. Há poucos dias abri, esperançado, a segunda garrafa. E o vinho apareceu-me adocicado, a saber intensamente a baunilha. A sensação foi desagradável. E o vinho já não o recomendo.

Se, por norma, evito os vinhos com a casta Cabernet-Sauvignon e os que não indicam as castas, não consigo evitar surpresas e já me têm saído de garrafas abertas os mais variados odores. E o que mais me desagrada é o da baunilha. Pode sair do contacto prolongado do vinho com a madeira de barricas onde até possam ter estado alojados vinhos doces. Ou, também, da adição de substâncias chamadas lactonas, que transmitem ao vinho sabores a avelã, caramelo e coco. As lactonas são ésteres encontrados em alimentos e os ésteres nascem da ação de um ácido orgânico sobre um álcool. Na incessante procura de atribuir ao vinho os sabores que, naturalmente, não tem, esta cosmética é fundamental e oferece a muitos consumidores sabores que são de tudo… menos de vinho.

E é esta predominância do sabor a baunilha que me tem afastado dos vinhos alentejanos, marcados por um sabor adocicado que destrói toda a sua racionalidade e, para mim, a memória de muitos vinhos alentejanos de enorme qualidade que já bebi.

Se tivesse, nestes meus apontamentos, alguma preocupação de manter uma abordagem científica, teria de ir abrir a terceira garrafa do José de Sousa Reserva de 2014 que cá tenho. A primeira era boa, a segunda não, e a terceira?…

Mas o certo é que não estou obrigado a esse rigor. E é por isso, receando até mais alguma surpresa, que não vou abrir já a terceira garrafa. E o que será ela? Um regresso ao Alentejo? Ou a confirmação do cheiro e do sabor da baunilha? Ou…? Talvez um dia saiba.

Digestivo

Deixemos o Alentejo para trás e vamos à Bairrada. O vinho Quinta do Encontro é uma boa aposta do grupo Global Wines/Dão Sul e talvez o de 2012 seja um dos melhores. É um vinho da Bairrada onde, ao contrário de outros, tem a emblemática casta Baga bem ligada com a casta Merlot. A Baga fica um pouco suavizada mas nada perde da sua individualidade. Este, sim, recomendo-o sem reservas.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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