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Tipo partido único

No dia em que o vinho do Dão souber a vinho do Alentejo, por exemplo, estaremos perante o risco de destruição de grande parte do tecido económico, cultural e gastronómico que nasce e está associado à vitivinicultura.


A constatação será, penso eu, preocupante para todos os enófilos ou, mesmo, para quem bebe vinho com algum conhecimento com algum gosto e apenas esporadicamente: a tendência para, de raiz, fazer vinhos todos iguais. Há um motivo comercial nas cabeças de quem o decide: se o vinho dos outros é assim e gostam dele, o meu tem de ser igual. É um erro, e grave.

A prova quase se dispensa. Basta ver a rotulagem e as castas que indicam (nos casos onde as indicam) numa qualquer prateleira de supermercado. O traço dominante é o uso da casta Touriga Nacional. Esta casta é, no vinho tinto, a grande casta definidora do Dão e, no Douro, um dos pilares essenciais dos seus vinhos.

Mas já não é assim nas regiões do noroeste de Lisboa (Tejo e Lisboa), no Alentejo, de alto a baixo, na Bairrada, na Península de Setúbal e, não poucas vezes, do Algarve. E estou só a falar do território continental. Na maior parte dos vinhos destas regiões, a Touriga Nacional aparece diluída. Submersa pelas outras. Não se distingue, não conserva a pujança da sua originalidade. Se no Dão é o esteio dos seus grandes vinhos, quando se começa a descer para o Sul, perde-se. E, em numerosas situações, nem se percebe o que está lá a fazer. Será talvez um verbo de encher, uma pequena garantia de que o vinho consegue ser mais robusto, mais aromático. Mas, na confusão, a Touriga Nacional perde-se. Fica castrada.

Esta tendência igualizadora tem correspondência na uniformização do gosto. As descrições alucinantes que aparecem em muitas notas de prova dizem tudo e até destacam os sabores adocicados e a horrorosa, aqui, baunilha. Já encontrei esse sabor em vinhos do Alentejo, da Península de Setúbal, do Douro… e do Dão. É arrepiante, porque nem sequer há nuances possíveis. Quando hoje se consegue, tecnicamente, criar tantos aromas, talvez nem seja
necessário mexer nas castas.

Haverá quem argumente que esta tendência uniformizadora é moda, ou que deixará de ser, ou que é o mercado que o impõe. Nada de novo: a tendência para seguir modas assim arrasadoras, sem qualquer tipo de reflexão, é vasta e caracteriza as épocas em que é maior a capacidade de comunicação e não se traduz apenas no vinho.

O problema é que esta espécie de “partido único”, num produto alimentar cujas características de gosto e de cheiro dependem em muito das características dos territórios em que nasce, anula por completo essa especificidade territorial. No dia em que o vinho do Dão souber a vinho do Alentejo, por exemplo, estaremos perante o risco de destruição de grande parte do tecido económico, cultural e gastronómico que nasce e está associado à vitivinicultura.

As definições das castas autorizadas para as várias regiões são bastante maleáveis e pode dizer-se que se permite quase tudo e em todo o lado. Talvez seja saudável que assim seja.

Talvez isso permita desenvolver muitas características diferenciadas. Mas também permite que se caminhe para esse formato único. Será isso que querem os produtores portugueses, nomeadamente aqueles que ainda podem conseguir arrepiar caminho? E é isso que o público enófilo também quer? Que seja tudo igual em todo o lado? Penso que não.

Digestivo

Um dos mitos urbanos associados ao vinho é o daquela espécie de testamento de viva voz que um grande “fabricante” de vinho de Lisboa terá deixados aos seus filhos na hora de morrer: “Não se esqueçam que também das uvas se faz vinho.” Tão mau como o que aqui está implícito é a origem externa das uvas, compradas noutras regiões, ou noutros países (Espanha, claro), para garantir a produção de vinho a produtores que, de legitimamente seu, pouco conseguem ter para ocupar o mercado. Há alguns casos e talvez de seja de temer que até sejam mais do que se possa pensar. Infelizmente, a situação não é transparente e o tema é um dos grandes tabu das publicações especializadas e da própria comunicação social generalista.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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