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Uma história portuguesa


A Adega do Bairro também se decidiu pela pia colectiva dos vinhos “de Pias” e nem a censuremos: há público que se deixa alegremente enganar, mesmo antes de beber.


A garrafa, e era a única, estava a 1,89 euros (7,8 reais) numa loja da cadeia de supermercados Intermarché. Comprei-a, com alguma curiosidade. A origem deste Nectar do Feitor (Álvaro R.P. Casaleiro, A-dos-Francos, concelho de Caldas da Rainha) é local. O rótulo revela um misto de ingenuidade com desenrascanço doméstico, numa composição que não devia ter saído das mãos de nenhum designer gráfico. O contra-rótulo é, de tudo, o mais interessante: “Sinta o prazer de saborear um vinho incorpado [sic], frutado e aromático produzido de uvas selecionadas das castas trincadeira [sic, sem vírgula] castalão [sic] francês e touriga nacional». Curiosidade suplementar: não tem indicação de ano.

Naquele momento, o Néctar do Feitor podia ser, na sua simplicidade, apenas uma variante em garrafa de vinho corrente vendido em “bag-in-the-box” ou uma produção coerentemente artesanal. Os vinhos da Região Oeste (este é Regional Tejo) interessam-me e ao preço a que estava… porque não?

Deixei-o descansar, provei-o, pouco bebi. Não era ofensivo. Era apenas pouco definido. Deixei-o à espera. No dia seguinte, não dava mais do que tinha dado e foi “arquivado”. A curiosidade não terminou aqui. Fui à procura na internet e dei com o produtor, neste caso, e apesar do nome individual, uma empresa produtora. Chama-se Adega do Bairro (www.adegadobairro.com), fica em A-dos-Francos (penso, até, que até já terei passado à porta) e sobre ela não se consegue saber muito.

Tem três marcas, apenas, todas em “bag-in-the-box” e delas só uma (a Néctar do Feitor) é que existe como garrafa. Os respectivos conteúdos são todos apresentados da mesma maneira. As outras duas são Adega do Bairro e… Feitor de Pias. Pias é uma vila do Alentejo, a uma distância de entre 262 a 300 quilómetros, que dá hoje o nome (e podia tê-lo evitado) a uma incontável variedade de marcas “de Pias”, das quais nem cinco por cento devem ser de uvas
locais. Portanto, a Adega do Bairro também se decidiu pela pia colectiva dos vinhos “de Pias” e nem a censuremos: há público que se deixa alegremente enganar, mesmo antes de beber.

A Adega do Bairro, que não apresenta imagens de vinhas próprias, também tem outra área de negócio. É grossista, apresentando-se como “fornecedores de vinho a granel com transporte próprio para todo o país. Com entreposto alfandegário. Importador / Exportador.”

Não se pode dizer, pelo menos para quem quiser ler e compreender, que haja nisto tudo falta de transparência. Abençoada ingenuidade.

Digestivo

António Virgílio é colecionador de rótulos de garrafas e vinhos e tem um site apropriadamente chamado “Rótulos de Vinhos Portugueses”, localizado em http://avasmafra.comunidades.net. Dedicado aos rótulos de vinho, apresenta uma impressionante colecção, com uma base de dados muito completa e divisões por “Glossário – Marcas”, “Curiosidades”, “Rótulos disponíveis para trocas”, “Vinhos da casa”, “Recordações”, “Rótulos com história” e outros. Algumas áreas do site estão ainda em construção e outras poderiam estar melhor organizadas, mas percebe-se o empenho do autor do site nesta história muito “sui generis” e pormenorizada dos vinhos portugueses. Com os devidos parabéns a António Virgílio, fica o convite para todos os interessados, que a visita é muito interessante e
muito útil.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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