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Vinho verde… mas tinto

Fiz uma descoberta de um verde tinto que, sendo diferente dos vinhos mais ácidos de malga à boca do pipo, se revela um vinho para todas as estações. Trata-se do Plainas Grande Escolha de 2016, proveniente da Casa de Santa Eulália, em Mondim de Basto.


Há vários anos fui ao Minho numa excursão de amigos, à época, com as respectivas famílias. O convite foi feito pela mulher, minhota, de um de nós e fomos, se as brumas da memória não me falham, para Monção. Um dos pormenores que retenho da viagem foi o contacto, senão o primeiro pelo menos o mais intenso, que pude ter com o vinho verde mesmo no seu “terroir”. E isso incluiu vinho branco e tinto, em ambiente familiar, com Alvarinhos locais mas também com os verdes tintos em formato tradicional: servidos em malga branca e não em copo, com a sua cor inimitável a deixar mais uma marca na louça.

Se já conhecia, em várias versões (mesmo mais novo ainda, naquelas que são de marca famosa e efeitos duvidosos), os vinhos verdes brancos, conhecia ainda mal os verdes tintos. Mas o contacto foi proveitoso e, por vezes, gosto de bebê-los. O vinho verde tinto faz parte, como os verdes brancos, do “terroir” dos vinhos verdes que coincide com a região portuguesa de Entre-Douro- e-Minho.

A designação de vinho verde já estará um pouco perdida no tempo, sendo mais comuns três explicações: o Minho é uma região “verde” pela sua exuberância vegetal; o vinho verde é mais “leve” e deverá ser apreciado em jovem, ainda “verde”, portanto; a sua acidez terá como origem uvas colhidas ainda jovens e por amadurecer e antes da data habitual das vindimas (o que, na realidade, não acontece).

As castas mais usadas são as brancas Alvarinho, Loureiro e Arinto e, nos tintos, destaca-se como mais importante a casta Vinhão.

No caso dos tintos, a maceração (ou curtimenta) abrange as partes sólidas das uvas (película, grainhas e por vezes engaços) e é a partir desses elementos que o mosto ganha o seu tom tinto e os correspondentes taninos. Já o branco segue o processo tradicional da fermentação do mosto afastado do engaço e das películas, ganhando assim a sua cor mais clássica.

O que depois distingue o vinho verde tinto do vinho tinto “maduro” é a sua pronunciada acidez, que se porta bem no frio, permitindo que este vinho seja mais facilmente bebido fresco. Aliás, é a uma temperatura mais baixa que o verde tinto revela todas as suas qualidades e é isso que o torna mais agradável em tempo quente.

Se os verdes brancos são também vinhos apropriados fora das refeições, mesmo como aperitivos, os tintos precisam de companhias mais fortes mas também fazem boa companhia à mesa. E neste domínio fiz uma descoberta de um verde tinto que, sendo diferente dos vinhos mais ácidos de malga à boca do pipo, se revela um vinho para todas as estações. Trata-se do Plainas Grande Escolha de 2016, proveniente da Casa de Santa Eulália, em Mondim de Basto, da casta Vinhão. Com 13% de graduação e com assinatura dos enólogos Anselmo Mendes e Francisco Marques Leandro, é um bom exemplo deste tipo de vinho tinto, capaz de representar bem a região dos vinhos verdes e de seduzir públicos de gostos mais padronizados.

DIGESTIVO

A especificidade do vinho verde, e muito em especial do branco, já lhe dá uma característica de animação e de vivacidade que quase dispensaria a sua versão gaseificada de vinho espumante. Mas eles também existem na região, para quem gosta de bolhinhas no copo. Mais recentes são os rosés, que, num exercício de perversão desnecessário, até vão buscar a Touriga Nacional para ganharem o sabor adocicado que as castas tintas locais não lhes dão. Estes não os recomendo.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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